Linux 7.3: Btrfs até 5x mais rápido, driver Rust da Nvidia e o caos dos patches de IA

Linux 7.3

Resumo em vídeo: este artigo é um resumo detalhado e aprofundado do vídeo “Linux 7.3 Review: AI Chaos, MASSIVE Performance, GPU, CPU, and Rust Upgrades”, do canal SavvyNik, combinado com o anúncio oficial do Linus Torvalds para o fechamento da janela de merge.
URL do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=tQ5adDeOGb0

A janela de merge do kernel Linux 7.3 fechou e o 7.3-rc1 está na rua. É um ciclo carregado: ganhos de até 5x no Btrfs, reduções de latência de 90% na gerência de memória, driver Rust da Nvidia amadurecendo, suporte inicial aos Apple M3 — e, nos bastidores, mantenedores se afogando em patches gerados por IA. Vamos por partes.

O anúncio oficial do Linus

No e-mail de fechamento da janela, Torvalds resumiu o clima (tradução livre):

“Duas semanas se passaram, é domingo à tarde e a janela de merge fechou. Nada realmente se destaca — exceto o fato de que ela é grande. […] Não é o maior rc1 que já tivemos, mas certamente está lá em cima em número de commits, e acho que isso não surpreende mais ninguém. […] Esta é mais uma daquelas releases com um grande dump de registradores de GPU AMD — desta vez os headers do DCN6. […] Esse código e headers da AMD respondem por cerca de um terço de todo o patch do rc1. Se você mascarar esse bloco, as coisas parecem bem normais.”

E com a sinceridade de sempre, Linus confessou ter dificultado a própria vida: “fiz uma besteira de fazer upgrade do sistema no meio da janela e tive que caçar um problema que isso causou — mas foi inteiramente culpa minha”. Nem o criador escapa de quebrar o próprio Linux num upgrade. Contexto técnico: DCN6 é a nova geração do Display Core Next da AMD (a parte da GPU que cuida de monitores e timings), e os headers são milhares de definições de registradores em C — por isso o volume.

Quase 2.000 CVEs e o caos da IA

Greg Kroah-Hartman trouxe o número que assusta: depois do 7.2 passar de 1.500 CVEs, o 7.3 se aproxima de 2.000 CVEs por release. E cresce junto outro problema: os mantenedores estão sendo soterrados por submissões de baixa prioridade — limpezas, correçõezinhas e “clarificações” geradas por IA/LLM. O time de rede foi direto: “estamos completamente sobrecarregados” — com a ironia de que a tábua de salvação foi “orçamento de LLM garantido, obrigado Meta”: estão combatendo IA com IA para triar mais de 630 patches de rede no ciclo. Tudo isso num kernel que se aproxima de 40 milhões de linhas de código — das quais 6 a 7 milhões são só o driver amdgpu.

Btrfs: até 5x mais rápido

A grande vitória de performance do ciclo: o Btrfs agora usa o iomap como bounce buffer no direct I/O em vez de cair para o buffered I/O lento. Cargas que ficavam em ~50% do máximo teórico foram para ~95% — na prática, o dobro de throughput, e alguns workloads melhoram de 3 a 5x. Vieram também correções importantes: proteção de fólios durante writeback no modo zoned (que evita o sistema montar somente-leitura em overcommit transitório) e um deadlock entre desfragmentação e reservas de alocação atrasada.

Escalonador: jogos mais suaves

O destaque é o “flatten the pick” no escalonamento de cgroups, aproximando o CFS de um modelo de fila única — em testes com CPUs mais antigas, melhorou performance em jogos. Somam-se: latência menor para tarefas de slice curto, correções de scheduling em clusters com capacidade assimétrica e preferência por núcleos totalmente ociosos no balanceamento NOHZ.

Gaming: Steam Controller nativo no kernel

O novo Steam Controller agora funciona pela pilha HID padrão do kernel — sem depender do Steam ou do SDL: é um dispositivo de entrada Linux normal. O HID também ganhou suporte ao gamepad MSI Claw, ao status de mute do microfone HyperX Quad 2 e aos botões reprogramáveis Logitech HID++ 2.0.

Apple Silicon: chegam os M3

Entram as device trees dos M3 Pro, M3 Max e M3 Ultra — o alicerce para o kernel reconhecer e iniciar o boot nessas máquinas (é suporte inicial, não funcionalidade completa). De brinde: sensores de monitoramento de hardware para M1/M2 e ajustes que economizam ~1 watt nos M1/M2 Pro/Max/Ultra. Sim, estamos correndo atrás — a Apple já vende Mac Mini M6 —, mas engenharia reversa tem esse preço.

Memória: três latências esmagadas

  • ZRAM/zswap: menos contenção de lock ao liberar páginas comprimidas — operação 1,83x mais rápida num Raspberry Pi e 1,4x num Intel de 20 núcleos
  • KSM (same-page merging): uma operação de reverse mapping que segurava memória por 500–700 ms caiu para menos de 2 ms no pior caso
  • TLB flush no x86: o CPU esperava os outros núcleos invalidarem endereços com preempção desabilitada — atrasos de até 16 ms num sistema de 16 núcleos agora ficam em ~1,5 ms (até 90% melhor). Ouro para telecom, áudio e trading
  • Na mesma linha, o comportamento SMP foi corrigido para reabilitar preempção enquanto espera CPUs remotas: latência de tarefas urgentes caiu de ~17 ms para ~1,5 ms

GPUs: AMD, NOVA em Rust e Nouveau

Na AMD: a nova evicção de VRAM com memcg trata a falta de memória de vídeo de forma inteligente — trabalho de uma engenheira da Valve, testado com Indiana Jones: The Great Circle configurado para 9 GB numa GPU de 8 GB, rodando liso graças ao despejo seletivo para a RAM. Placas antigas (era GFX6/GFX8) ganham modifiers DRM que destravam Wayland e Vulkan modernos, e o novo hardware ganha o display DCN 6.0 com correções de 8K.

Na Nvidia: o NOVA — o driver de nova geração escrito em Rust, sucessor do Nouveau — avança com boot do GSP (o processador de sistema da GPU que assume a gerência de baixo nível), vGPU, firmware TLV e mais suporte a Hopper e Blackwell. E o Nouveau ganha decodificação de vídeo NVDEC para o driver Vulkan NVK do Mesa — H.264 acelerado por hardware primeiro, HEVC a caminho.

USB-C e Thunderbolt: o fim do cabo-mistério

O kernel agora consegue ler as capacidades do próprio cabo USB-C: se ele suporta DisplayPort/Thunderbolt alt-mode, se é ativo ou passivo e que velocidades aguenta. Dois cabos idênticos por fora podem ser um só-carga-e-USB-2.0 e um Thunderbolt completo — agora o Linux sabe a diferença, o que deve reduzir os misteriosos fracassos de dock e monitor. Também chega o busy poll para USB4: menos latência em transferências diretas entre máquinas, ao custo de mais CPU.

Filesystems: iomap, FUSE e até Time Machine

  • iomap concluiu a migração para o modelo de iterador: menos chamadas indiretas e, em NVMe PCIe Gen 5, de 1,92 para 2,19 milhões de IOPS (+4–5%)
  • FUSE ganha pools de buffers io_uring e zero-copy: menos cópia entre kernel e userspace, fechando a distância para filesystems in-kernel
  • KSMBD (servidor SMB do kernel) agora fala as extensões proprietárias da Apple: um share Linux pode ser destino de backup do Time Machine
  • Chega o alicerce (DAX/NVDIMM) para o FAMFS, filesystem da Micron para memória conectada por fabric — pools de centenas de terabytes compartilhados, mirando IA
  • Saem os fósseis EFS e freevxfs, e o FAT corrige um bug clássico: nomes acima de 255 bytes eram truncados em silêncio; agora a operação falha corretamente

Firmware, energia e segurança

  • EFI com timeout: chamada de runtime service travada não congela mais o sistema — após 120 segundos o kernel marca o caminho como quebrado e reporta
  • Energia: Intel P-state mais preciso em idle; na AMD, o EPP dinâmico por núcleo decide potência vs desempenho núcleo a núcleo — ótimo para bateria de notebook
  • AF_ALG em fim de linha: o novo af_alg_restrict expõe por padrão só os algoritmos ainda necessários, reduzindo a superfície de ataque da API de criptografia via socket
  • KCFI (integridade de fluxo de controle) reescrito para não punir a performance de CPUs Intel antigas
  • Limpeza de segurança: os drivers SGI GRU (hardware de 2012, ~7.000 linhas sem uso) foram deletados, e um lote grande de ARM 32-bit legado (board files pré-device-tree, EABI antigos) entrou em depreciação — kernel menor é kernel mais defensável

Rust se espalha, e o Linux vai ao espaço

O Rust no kernel dá dois passos de portabilidade: o preparo para o backend experimental rustc_codegen_gcc (destravando arquiteturas que só o GCC suporta, como m68k e Alpha, e reduzindo a dependência do LLVM) e o suporte ao PowerPC — 32-bit big-endian e 64-bit little-endian se juntam a x86-64, ARM64, RISC-V e LoongArch. E tem até nota espacial: entra o suporte inicial ao Intel Starfire, SoC tolerante a radiação derivado do Panther Lake, voltado a naves e aeroespacial — com correção de erros de memória incluída. Fecha a lista o networking: PHYs Realtek RTL8261C/D de 10 GbE passam a funcionar no kernel de fábrica, sem driver do fabricante.

Resumo da ópera

O 7.3 é aquele tipo de release sem uma manchete única, mas com dezenas de vitórias acumuladas: Btrfs voando, latências de memória esmagadas, gaming cada vez mais cidadão de primeira classe (obrigado, Valve), o driver Rust da Nvidia saindo do papel e a faxina de código legado em dia. O rc1 está fechado; agora são ~7 semanas de release candidates até a versão final. Se você quiser acompanhar de perto, o vídeo do SavvyNik detalha cada patch com os links das fontes — vale a inscrição.