
Em 1993, três engenheiros se reuniram numa lanchonete Denny’s na Califórnia para fundar uma empresa de chips gráficos num mercado que já tinha dezenas de concorrentes. Trinta anos depois, aquela empresa se tornaria — por vários momentos — a mais valiosa do planeta. Esta é a história da NVIDIA: dos flops que quase a mataram ao acidente feliz chamado CUDA que a colocou no centro da revolução da IA.
1993: três fundadores e uma mesa de lanchonete
Jensen Huang (ex-LSI Logic e AMD), Chris Malachowsky e Curtis Priem (ambos ex-Sun Microsystems) fundaram a NVIDIA em abril de 1993, com US$ 40 mil e a tese de que os gráficos 3D dos videogames seriam o motor de computação do futuro. Jensen tinha exatos 30 anos — e assumiu um compromisso que mantém até hoje: é o CEO fundador há mais tempo no cargo na indústria de semicondutores.
1995–1997: o flop e a salvação
O primeiro produto, o NV1 (1995), foi um fracasso instrutivo: apostou em superfícies quadráticas quando o mundo (e o novo DirectX da Microsoft) padronizava triângulos. A empresa chegou a 1996 à beira da falência — demitiu mais da metade do quadro e sobrou caixa para uma última cartada. Dessa época vem o lema interno famoso: “nossa empresa está a trinta dias de falir”. A cartada foi o RIVA 128 (1997), um chip DirectX rápido e barato que vendeu um milhão de unidades em quatro meses e salvou a companhia.
1999: nasce o termo “GPU”
Em outubro de 1999, meses depois do IPO, a NVIDIA lançou o GeForce 256 e cunhou o termo que usamos até hoje: Graphics Processing Unit. A novidade real era o T&L por hardware (transformação e iluminação), tirando trabalho da CPU. No ano seguinte, comprou os restos da lendária 3dfx — a rival que definira a era Voodoo — e fechou o contrato do chip gráfico do primeiro Xbox.
2006–2007: o acidente feliz chamado CUDA
A arquitetura G80 (GeForce 8800, 2006) trouxe shaders unificados — e junto veio a decisão mais importante da história da empresa: expor esses núcleos programáveis para computação geral. O CUDA, lançado ao público em 2007, foi ridicularizado por analistas como custo desnecessário em chips de videogame. Jensen insistiu por anos, colocando CUDA em todas as GeForce — criando, sem saber, a maior base instalada de computação paralela do mundo.
2012: AlexNet muda tudo
Em 2012, três pesquisadores de Toronto (Alex Krizhevsky, Ilya Sutskever e Geoffrey Hinton) treinaram uma rede neural em duas GeForce GTX 580 de gamer e esmagaram a competição de reconhecimento de imagens ImageNet. O AlexNet provou que deep learning + GPU era a fórmula — e a década de CUDA nas prateleiras significava que todo laboratório do mundo já tinha o hardware. Em 2016, Jensen entregou pessoalmente o primeiro supercomputador DGX-1 na sede de uma startup chamada OpenAI.
2018–2022: RTX, Arm e o H100
Em 2018, a arquitetura Turing trouxe ray tracing em tempo real (RTX) e os Tensor Cores para o desktop. Em 2020, a NVIDIA tentou comprar a Arm por US$ 40 bilhões — negócio bloqueado por reguladores em 2022. No mesmo ano, o H100 (Hopper) chegou ao mercado meses antes do lançamento do ChatGPT: timing perfeito para se tornar o hardware mais disputado do mundo.
2023–2026: a empresa mais valiosa do mundo
A corrida da IA generativa fez a receita de datacenter explodir. A NVIDIA cruzou US$ 1 trilhão de valor de mercado em 2023, US$ 3 trilhões em 2024 com a chegada da arquitetura Blackwell, e desde 2025 disputa o posto de empresa mais valiosa do planeta — controlando cerca de 92% do mercado de GPUs corporativas, como contamos no post sobre o fosso do CUDA.
A relação (complicada) com o Linux
Para o nosso mundo, a NVIDIA é personagem ambígua: drivers proprietários de qualidade, mas fechados — o que rendeu em 2012 o dedo do meio mais famoso da história do software livre, cortesia de Linus Torvalds. A maré virou: em 2022 a empresa abriu os módulos de kernel, e hoje o driver NOVA em Rust e o Nouveau/NVK avançam com apoio oficial — cobrimos os detalhes no post do kernel Linux 7.3. Faz sentido: praticamente todo cluster de IA do planeta roda as GPUs verdes sobre Linux.
Linha do tempo
- 1993 — Fundação por Jensen Huang, Chris Malachowsky e Curtis Priem
- 1995 — NV1, o primeiro flop (superfícies quadráticas)
- 1996 — Quase-falência; demissão de mais da metade da equipe
- 1997 — RIVA 128 salva a empresa (1 milhão de chips em 4 meses)
- 1999 — IPO em janeiro; GeForce 256 cunha o termo “GPU” em outubro
- 2000 — Compra dos ativos da 3dfx; contrato do Xbox
- 2006 — G80/GeForce 8800: shaders unificados
- 2007 — Lançamento público do CUDA
- 2012 — AlexNet treina em GeForces e detona a era do deep learning
- 2016 — Primeiro DGX-1 entregue à OpenAI
- 2018 — RTX/Turing: ray tracing em tempo real
- 2020–2022 — Tentativa de compra da Arm (US$ 40 bi), bloqueada
- 2022 — H100 lançado; módulos de kernel Linux abertos; ChatGPT detona a demanda
- 2023 — US$ 1 trilhão de valor de mercado
- 2024 — US$ 3 trilhões; arquitetura Blackwell
- 2025+ — Disputa o posto de empresa mais valiosa do mundo; ~92% do mercado de aceleradores
A lição da NVIDIA é de teimosia estratégica: o CUDA deu prejuízo e tomou vaia por quase uma década antes de virar o fosso mais valioso da tecnologia. Nos próximos posts da série, as rivais: a história da AMD e a história da Intel.