
Nenhuma empresa de tecnologia morreu e renasceu tantas vezes quanto a AMD. Fundada em 1969 para viver à sombra da Intel, ela passou cinco décadas alternando golpes de gênio (o Athlon, o x86-64, o Zen) com beiras de abismo — até que uma engenheira chamada Lisa Su transformou uma ação de US$ 2 na maior virada da história dos semicondutores. Esta é a história da AMD, com datas e cicatrizes.
1969: oito homens e um plano de segunda fonte
Em 1º de maio de 1969, Jerry Sanders — o vendedor mais carismático da Fairchild Semiconductor — fundou a Advanced Micro Devices com sete colegas. Enquanto a Intel dos ex-Fairchild Noyce e Moore nasceu regada a capital, Sanders penou para levantar o dinheiro. A estratégia inicial era humilde e inteligente: ser segunda fonte de chips alheios, fabricando com mais qualidade os projetos dos outros.
1982: o contrato que definiu tudo
Quando a IBM escolheu o Intel 8088 para o seu PC, exigiu uma segunda fonte de fornecimento. Resultado: em 1982, a Intel foi obrigada a licenciar o x86 para a AMD. O casamento forçado azedou rápido — em 1987 a Intel cortou o acesso ao 386, e as duas mergulharam em oito anos de guerra judicial que terminou em 1995 com a AMD garantindo o direito de fazer chips x86 com projeto próprio. Enquanto isso, o Am386 (1991) e o Am486 venderam milhões clonando o desempenho da Intel por menos.
1999–2003: Athlon e o golpe de mestre do x86-64
Com o Athlon (K7, 1999) — projeto liderado por Dirk Meyer, veterano do DEC Alpha — a AMD fez o impensável: superou a Intel em desempenho, e em 2000 cravou o primeiro GHz da história dos processadores de consumo, dias antes da rival. O golpe seguinte foi ainda maior: enquanto a Intel apostava no Itanium de 64 bits incompatível, a AMD estendeu o x86 para 64 bits mantendo compatibilidade total. O Opteron e o Athlon 64 (2003) venceram tão claramente que a Intel teve de engolir o orgulho e licenciar o AMD64 — até hoje, todo processador x86 de 64 bits do planeta, incluindo os da Intel, roda a arquitetura da AMD (o x86_64 do seu uname -m).
2006–2012: ATI, Bulldozer e a beira do abismo
Em 2006, a AMD pagou US$ 5,4 bilhões pela ATI — cara demais, na hora errada. Endividada, tropeçou nas arquiteturas (o atraso do Barcelona, o fiasco do Bulldozer em 2011) enquanto a Intel acertava com o Core. Em 2009, vendeu as próprias fábricas (nascia a GlobalFoundries) para sobreviver. Em 2012, a ação valia cerca de US$ 2 e analistas escreviam obituários. A aquisição da ATI, ironicamente, plantaria a salvação: as APUs garantiram os contratos de PlayStation 4 e Xbox One (2013) — o caixa que manteve as luzes acesas.
2014: chega Lisa Su
Em outubro de 2014, a engenheira Lisa Su (PhD no MIT, veterana de IBM) assumiu o comando com um plano simples de enunciar e brutal de executar: apostar tudo numa arquitetura nova. O resultado foi o Zen: os Ryzen chegaram em 2017 com ganho de cerca de 52% de IPC sobre a geração anterior, e os EPYC invadiram os servidores. Em 2019, o Zen 2 trouxe o design de chiplets em 7nm da TSMC — modularidade que a Intel, presa às próprias fábricas atrasadas, não conseguia responder.
2020–2026: a virada completa
Os números contam a virada: em 2022 a AMD comprou a Xilinx por US$ 49 bilhões (líder em FPGAs) e ultrapassou a Intel em valor de mercado pela primeira vez. O Steam Deck roda uma APU AMD sob Linux; PS5 e Xbox Series seguem vermelhos; e o MI300X (2023) colocou a empresa na briga dos aceleradores de IA — briga difícil, como analisamos no post AMD vs NVIDIA e o fosso do CUDA: o hardware vence no papel, mas o software da rival ainda dita o mercado.
AMD e Linux: melhores amigos
Se a NVIDIA historicamente atritou com o kernel, a AMD fez o caminho oposto: o driver amdgpu é open source e vive dentro do kernel (é rotineiramente o maior bloco de código de cada release, como no 7.3), o Mesa/RADV entrega Vulkan de primeira linha e o ROCm é aberto. Resultado: para gaming em Linux — do Steam Deck ao desktop — a recomendação padrão da comunidade é placa vermelha.
Linha do tempo
- 1º/mai/1969 — Jerry Sanders e sete ex-Fairchild fundam a AMD
- 1982 — IBM força a Intel a licenciar o x86 para a AMD
- 1987–1995 — Guerra judicial com a Intel; AMD ganha o direito de projetar x86 próprio
- 1991 — Am386 vende milhões
- 1999 — Athlon (K7) supera a Intel em desempenho
- 2000 — Primeiro processador de consumo a 1 GHz
- 2003 — Opteron/Athlon 64: nasce o x86-64 (AMD64), adotado depois pela própria Intel
- 2006 — Compra da ATI por US$ 5,4 bilhões
- 2009 — Vende as fábricas; nasce a GlobalFoundries
- 2011 — Fiasco do Bulldozer
- 2012 — Ação a ~US$ 2; beira da falência
- 2013 — APUs no PS4 e Xbox One seguram o caixa
- 2014 — Lisa Su assume como CEO
- 2017 — Ryzen (Zen) e EPYC: a volta por cima
- 2019 — Zen 2: chiplets em 7nm na TSMC
- 2022 — Compra da Xilinx (US$ 49 bi); ultrapassa a Intel em valor de mercado
- 2023 — MI300X entra na corrida da IA
- 2025+ — Zen 5/6 e a briga pelo datacenter de IA
A moral da história da AMD cabe numa frase de admin: redundância importa — a indústria inteira se beneficiou de existir uma segunda fonte de x86 brigando por preço e inovação. Complete a série com a história da NVIDIA e a história da Intel.