{"id":484,"date":"2026-09-05T23:45:18","date_gmt":"2026-09-06T02:45:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.linuxpro.com.br\/2026\/09\/a-historia-de-aaron-swartz\/"},"modified":"2026-09-07T22:54:38","modified_gmt":"2026-09-08T01:54:38","slug":"a-historia-de-aaron-swartz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.linuxpro.com.br\/en\/2026\/09\/a-historia-de-aaron-swartz\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria de Aaron Swartz: o c\u00f3digo e o acesso aberto"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de Aaron Swartz, de camiseta com o s\u00edmbolo do RSS e um livro na m\u00e3o, numa biblioteca, ao lado do mascote do LinuxPro\" src=\"\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/aaron-swartz-v2.webp\" width=\"1052\" height=\"652\" \/><\/p>\n<p>Aos 14 anos, <strong>Aaron Hillel Swartz<\/strong> (Highland Park, Illinois, 8 de novembro de 1986) ajudou a escrever o RSS 1.0. Aos 26, em 11 de janeiro de 2013, morreu no apartamento de Brooklyn enquanto o Departamento de Justi\u00e7a dos EUA o processava por baixar artigos acad\u00eamicos. Entre os dois pontos: Creative Commons, Markdown, Reddit, Open Library, PACER, o manifesto do acesso aberto e a campanha que derrubou o SOPA. Este texto \u00e9 a biografia t\u00e9cnica \u2014 sem mart\u00edrio de cartaz, sem suavizar o processo.<\/p>\n<p><!-- more --><\/p>\n<h2>Highland Park: wiki aos 12, RSS aos 14<\/h2>\n<p>Filho de Robert e Susan Swartz, Aaron programava cedo. Aos 12 fez The Info Network, um wiki antes da Wikipedia; ficou entre os finalistas do ArsDigita Prize. Aos 14 estava no grupo de trabalho RDF do W3C, com Tim Berners-Lee, e saiu como coautor da especifica\u00e7\u00e3o RSS 1.0 \u2014 o formato que ainda alimenta leitores de feed, podcast e boa parte da web que n\u00e3o cabe no algoritmo de uma rede social.<\/p>\n<p>Abandonou o ensino m\u00e9dio. Passou por Stanford e saiu. O padr\u00e3o se repetiria: institui\u00e7\u00e3o grande, impaci\u00eancia, projeto pr\u00f3prio.<\/p>\n<h2>Creative Commons, Markdown e web.py<\/h2>\n<p>Lawrence Lessig o puxou para o rec\u00e9m-nascido Creative Commons. Aaron escreveu a arquitetura das licen\u00e7as em formato que m\u00e1quina l\u00ea \u2014 o RDF por tr\u00e1s do selo CC. Sem isso, \u201cCC BY\u201d seria s\u00f3 um PDF jur\u00eddico. Com isso, virou metadado.<\/p>\n<p>Com John Gruber, ajudou a fechar a sintaxe do Markdown. Escreveu o framework Python <code data-no-translation=\"\">web.py<\/code>, m\u00ednimo de prop\u00f3sito, usado em produ\u00e7\u00e3o no Reddit e em dezenas de ferramentas pequenas. O gosto era o mesmo em tudo: formato simples, especific\u00e1vel, que qualquer um pudesse implementar.<\/p>\n<h2>Infogami, Reddit e a Cond\u00e9 Nast<\/h2>\n<p>No Y Combinator, o Infogami de Aaron se fundiu ao Reddit de Steve Huffman e Alexis Ohanian. A Cond\u00e9 Nast comprou o conjunto. Aaron virou, de uma hora para outra, funcion\u00e1rio num escrit\u00f3rio da <em>Wired<\/em>. Durou pouco: cultura corporativa, ritmo de revista, zero interesse. Saiu em 2007 com dinheiro de vesting e a fama de cofundador \u2014 cr\u00e9dito que Huffman nem sempre gostou de dividir, e que a hist\u00f3ria do produto justifica s\u00f3 em parte. O que ele de fato fez: c\u00f3digo, web.py, teimosia de arquitetura.<\/p>\n<p>Depois veio o Open Library, no Internet Archive de Brewster Kahle: um cat\u00e1logo p\u00fablico de todos os livros, n\u00e3o s\u00f3 os que uma livraria quer vender. A obsess\u00e3o era a mesma do RSS: informa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 existe, trancada por formato, pre\u00e7o ou ToS.<\/p>\n<h2>PACER, 2008: documento p\u00fablico com ped\u00e1gio<\/h2>\n<p>O PACER (Public Access to Court Electronic Records) cobra por p\u00e1gina de processo federal \u2014 documento que j\u00e1 \u00e9 p\u00fablico. Com Carl Malamud, Aaron escreveu um script Perl que, a partir de bibliotecas com acesso gratuito, baixou cerca de 2,7 milh\u00f5es de documentos e colocou fora do paywall. O FBI abriu investiga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o houve den\u00fancia.<\/p>\n<p>No mesmo ano ele publicou o <em>Guerrilla Open Access Manifesto<\/em>: a tese de que trancar ci\u00eancia paga com dinheiro p\u00fablico atr\u00e1s de editora \u00e9 um erro pol\u00edtico, n\u00e3o um detalhe de copyright. O texto \u00e9 curto, militante e, para o Departamento de Justi\u00e7a, viria a ser lido como inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>JSTOR, MIT e o CFAA<\/h2>\n<p>Entre setembro de 2010 e janeiro de 2011, Aaron ligou um laptop na rede do MIT \u2014 conta de convidado, arm\u00e1rio de rede destrancado, script \u2014 e baixou acervo em massa da JSTOR, biblioteca digital de papers acad\u00eamicos. A JSTOR, depois de receber os discos de volta, n\u00e3o quis processar. O MIT oscilou. O governo federal n\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 6 de janeiro de 2011 a pol\u00edcia do MIT o prendeu. A promotoria de Massachusetts (Carmen Ortiz, Stephen Heymann) enquadrou o caso no Computer Fraud and Abuse Act: dezenas de acusa\u00e7\u00f5es federais, pena te\u00f3rica na casa de 30 a 50 anos e multa de milh\u00f5es, conforme a den\u00fancia vigente. O CFAA de 1986 trata \u201cacesso n\u00e3o autorizado\u201d com a mesma palavra que cobre tanto o invasor de banco quanto o usu\u00e1rio que viola um termo de uso. Aaron n\u00e3o vendeu os files, n\u00e3o derrubou servi\u00e7o, n\u00e3o pediu resgate. O processo seguiu mesmo assim. Acordo com cadeia efetiva estava na mesa; ele recusou os termos.<\/p>\n<h2>SOPA, Demand Progress, 11 de janeiro<\/h2>\n<p>Em paralelo, em 2010, fundou o Demand Progress. Em 2012 o grupo foi pe\u00e7a central contra o SOPA\/PIPA \u2014 os projetos que teriam dado ao governo e a titulares de copyright um bot\u00e3o para derrubar DNS de sites acusados de pirataria. A blackout da Wikipedia e o recuo do Congresso s\u00e3o o cap\u00edtulo em que a pol\u00edtica de internet dos EUA ainda cita o nome dele com orgulho.<\/p>\n<p>Em 11 de janeiro de 2013, Aaron foi encontrado morto no apartamento de Brooklyn. Tinha 26 anos. A fam\u00edlia declarou: a morte n\u00e3o era s\u00f3 trag\u00e9dia pessoal, era produto de um sistema penal de intimida\u00e7\u00e3o e excesso de acusa\u00e7\u00e3o. Tim Berners-Lee escreveu: \u201cAaron dead. World wanderers, we have lost a wise elder.\u201d O document\u00e1rio <em>The Internet\u2019s Own Boy<\/em> (2014) reconstitui o processo. O \u201cAaron\u2019s Law\u201d, tentativa de estreitar o CFAA, n\u00e3o passou.<\/p>\n<h2>Timeline<\/h2>\n<ul>\n<li><strong>8 de novembro de 1986<\/strong> \u2014 nasce em Highland Park, Illinois.<\/li>\n<li><strong>1999<\/strong> \u2014 aos 12 anos, cria o The Info Network, enciclop\u00e9dia colaborativa anterior \u00e0 Wikip\u00e9dia.<\/li>\n<li><strong>2000<\/strong> \u2014 aos 14, participa da especifica\u00e7\u00e3o do <strong>RSS 1.0<\/strong>.<\/li>\n<li><strong>2001\u20132002<\/strong> \u2014 trabalha no <strong>Creative Commons<\/strong> e cria o <strong>Markdown<\/strong> junto com John Gruber.<\/li>\n<li><strong>2005<\/strong> \u2014 funda a Infogami, que se funde ao Reddit; escreve o web.py.<\/li>\n<li><strong>2006<\/strong> \u2014 a Cond\u00e9 Nast compra o Reddit; ele sai pouco depois.<\/li>\n<li><strong>2008<\/strong> \u2014 baixa em massa documentos do <strong>PACER<\/strong>, sistema que cobrava por registro judicial p\u00fablico. O FBI investiga e arquiva o caso.<\/li>\n<li><strong>2010<\/strong> \u2014 funda o Demand Progress e lidera a campanha contra a <strong>SOPA<\/strong>, que acaba derrotada.<\/li>\n<li><strong>6 de janeiro de 2011<\/strong> \u2014 \u00e9 preso por baixar artigos do <strong>JSTOR<\/strong> na rede do MIT.<\/li>\n<li><strong>2011\u20132013<\/strong> \u2014 responde a acusa\u00e7\u00f5es sob a Lei de Fraude e Abuso de Computador, com penas somadas que passavam de trinta anos.<\/li>\n<li><strong>11 de janeiro de 2013<\/strong> \u2014 morre aos 26 anos.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>O que ficou<\/h2>\n<p>RSS ainda entrega o que o feed de rede social recusa. Creative Commons \u00e9 o default de Wikipedia, Commons, paper preprint e boa parte do que este blog pode republicar. Markdown \u00e9 a sintaxe em que se escreve README, post e lei. O PACER continua cobrando. A JSTOR abriu mais acervo. O CFAA continua largo.<\/p>\n<p>Swartz n\u00e3o \u00e9 santo de reposit\u00f3rio: o download em massa no MIT foi deliberado, o manifesto assumia o risco, o processo foi desproporcional. Os tr\u00eas fatos cabem no mesmo par\u00e1grafo. O que n\u00e3o cabe \u00e9 tratar o desfecho como nota de rodap\u00e9 de \u201cprod\u00edgio que se foi\u201d. Ele construiu formatos. Os formatos ficaram. O processo, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>No mesmo fio deste blog: <a href=\"\/en\/2017\/04\/pioneiros-do-opensource\/\">pioneiros do opensource<\/a>, <a href=\"\/en\/2026\/09\/a-historia-de-linus-torvalds\/\">Linus Torvalds<\/a> e a tens\u00e3o de sempre entre c\u00f3digo aberto e o resto do direito.<\/p>\n<p style=\"font-size:.9em;opacity:.75\">Ilustra\u00e7\u00e3o de capa desenhada a partir de fotografia de Aaron Swartz dispon\u00edvel no <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Aaron_Swartz_(1).jpg\">Wikimedia Commons<\/a>, sob licen\u00e7a CC BY 2.0.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 14 anos, Aaron Hillel Swartz (Highland Park, Illinois, 8 de novembro de 1986) ajudou a escrever o RSS 1.0. Aos 26, em 11 de janeiro de 2013, morreu no apartamento de Brooklyn enquanto o Departamento de Justi\u00e7a dos EUA o processava por baixar artigos acad\u00eamicos. 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