Déficit de Profissionais de TI no Brasil

Mascote do LinuxPro traçando a curva ascendente do mercado de TI, com o chip da IA em alta e a função em queda

Nota (2026): Notícia de 2017, baseada num estudo Cisco/IDC cujas projeções iam até 2019 — ou seja, venceram há sete anos. O texto fica como registro; a seção O que aconteceu de verdade, no fim, traz os números atuais da Brasscom e o que mudou de forma estrutural no mercado, incluindo o efeito da IA sobre a porta de entrada da carreira.

Déficit de Profissionais de TI no Brasil será de 161 mil até 2019

A evolução das redes e a digitalização tem representado novos desafios para profissionais capacitados no desenvolvimento e gerenciamento de infraestruturas de rede robustas e flexíveis

A demanda por trabalhadores especializados em Tecnologia da Informação e Telecomunicações na América Latina irá superar a oferta de empregos até 2019. Segundo o estudo The Network Skills in Latin America, encomendado pela Cisco à IDC, faltarão 449 mil profissionais para preencher vagas abertas na região até o fim da década. O Brasil tem a maior lacuna de habilidades em rede da região: somente em 2015, o país teve um déficit de 195 mil profissionais capacitados e empregados em tempo integral, um número que deve diminuir para 161 mil até 2019.

O estudo foi realizado em 10 países e analisou a disponibilidade de profissionais especializados em TIC na América Latina entre 2015 e 2019. A IDC realizou 760 entrevistas em oito países da América Latina: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, México, Peru e Venezuela. As entrevistas foram segmentadas por indústrias verticais e tamanho dos segmentos: governo, saúde, educação, telecomunicações, serviços financeiros, manufatura, varejo/ atacado, mídia / transmissão e editoras, viagem, transporte e distribuição, recursos e serviços em empresas com mais de 100 empregados.

No ano passado, houve uma defasagem de 474 mil profissionais de redes em toda a região e, embora exista um ligeiro decréscimo de 1,4% na demanda prevista em 2019, a evolução das infraestruturas e a digitalização têm representado novos desafios para as empresas.

“Estamos nos movendo rapidamente para uma era de digitalização acelerada, onde a tecnologia conecta tudo – pessoas, processos, dados e coisas. E estas conexões irão criar um impacto sustentável para a sociedade em todos os aspectos”, afirma Jordi Botifoll, Presidente da Cisco para a América Latina e vice-presidente sênior nas Américas. “Ao abraçar a digitalização, a América Latina pode se tornar um líder na próxima geração de empregos, inclusão social, pesquisa e educação, mas precisamos trabalhar juntos para preencher a lacuna de competências na região”.

Trabalho remoto internacional: conexões saindo do Brasil para escritórios em vários continentes

A Cisco lembra que a tecnologia de rede emergente requer trabalhadores qualificados em vídeo, nuvem, mobilidade, datacenter & virtualização, big data, segurança cibernética, Internet das coisas (IoT) e desenvolvimento de software, além das habilidades básicas. Além disso, os profissionais de TIC requisitados devem desenvolver outras habilidades não técnicas, como: proficiência no idioma de inglês, trabalho em equipe, resolução de problemas, gerenciamento de projetos, criatividade e inovação, capacidade de comunicação e uma atitude empreendedora.

De modo geral, esta lacuna faz com que empresas e governos tenham de encarar o desafio de encontrar as competências adequadas para alavancar a inovação e a competitividade global. De acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), uma porcentagem de 10% de maior penetração de banda larga na América Latina pode representar um aumento de 3,9% no PIB e 2,61% na produtividade de um país, razão pela qual é importante um esforço conjunto da academia, governos e do setor privado para o aumento do número de profissionais qualificados, contribuindo no crescimento econômico acelerado, melhorando a produtividade e criando novos postos de trabalho.

Mulheres

Outro fator medido no estudo está relacionado com a inclusão da mulher. Em média, a participação feminina no segmento de redes é de 13,3%; atualmente, 15,3% das companhias não tem nenhuma mulher nas suas equipes de redes. Segundo a Unesco, as mulheres correspondem a 31 % da população de estudantes de Ciências da Computação na América Latina. O estudo mostra que ainda há espaço para melhorias na região nesse sentido.

Números do Brasil

A pesquisa revelou que Brasil tem a maior lacuna geral de habilidades para trabalho em rede, tanto em termos absolutos como percentuais.

De acordo com o modelo usado no estudo, o mercado brasileiro teve, em 2015, uma lacuna de 195.365 profissionais capacitados e empregados em tempo integral, diminuindo para 161.581 em 2019. Esses números representam um gap de 41% em 2015 e 35% em 2019, respectivamente – sendo que metade desses postos não preenchidos será para pessoas que entendam as tecnologias emergentes.

A pesquisa destaca que o Brasil está atualmente passando por uma crise política e econômica que o país não vê há décadas, mas o dinamismo das despesas com tecnologia, tanto por parte das empresas como dos consumidores, ainda gera uma demanda não preenchida (mesmo com o aumento do desemprego).

O inglês como ponte entre o estudo técnico e o mercado internacional

“Apesar das políticas adotadas, a lacuna permanece elevada. Essa tendência, no entanto, deverá ser ligeiramente corrigida, devido a esforços contínuos do governo e do setor privado no desenvolvimento de profissionais qualificados em TIC e a uma estrutura de custo corrigida mais estável para o trabalho”, afirma a Cisco.

Por causa do tamanho da economia brasileira, o país continuará demandando profissionais de redes e não será capaz de fechar a lacuna no período de estudo. O elevado potencial do mercado interno gera a crescente demanda por serviços em todos os segmentos, especialmente em empresas de médio porte.

Muitas empresas de serviços de data center definiram suas operações no país, devido às tarifas elevadas sobre mercadorias importadas e normas legais na nuvem para a permanência física das informações no Brasil. Segundo o estudo da IDC, isso impulsionou a demanda adicional por profissionais, ampliando a lacuna de habilidades.

O estudo mostra também uma compreensão mais madura da rede nas empresas no Brasil. 45% das empresas vê a rede como a plataforma que sustenta processos de negócios, um valor mais alto do que a média de 37% da América Latina.

Além disso, o investimento em novas tecnologias emergentes no Brasil é considerável: 38% das empresas no Brasil irá investir em projetos de IoT no curto prazo, mais do que qualquer outro país na América Latina. Todos esses fatores contribuem para dificultar a contratação de profissionais de redes com o conjunto adequado de habilidades.

(*) A Cisco corrigiu o dado divulgado. Em vez de 179 mil, serão 161 mil postos de trabalho não preenchidos até 2019.

Links

  • Deficit de Profissionais de TI
  • http://www.cbsi.net.br/2015/01/oportunidades-na-area-de-ti-deficit-de.html
  • http://www.cbsi.net.br/2017/04/mercado-de-ti-no-canada.html
  • http://www.cbsi.net.br/2017/04/em-santa-catarina-sobram-oportunidades-de-ti.html
  • http://www.cbsi.net.br/2017/04/83-mil-profissionais-de-ti-podem-ficar-desempregados-nos-proximos-3-anos.html

O que aconteceu de verdade

O prazo do estudo acima terminou em 2019. Nove anos depois, dá para conferir o placar — e a conclusão é a mais incômoda possível: a lacuna não fechou, aumentou.

Os números de agora

Os dados da Brasscom, a associação das empresas de tecnologia, contam a história em duas linhas:

  • O Brasil forma cerca de 53 mil profissionais de tecnologia por ano.
  • A demanda anual é de aproximadamente 159 mil.

É um déficit de três para um, todo ano, que se acumula. As projeções apontam para mais de meio milhão de profissionais em falta no acumulado até 2026 — bem acima dos 161 mil que o estudo de 2016 previa. E não é por falta de investimento: a estimativa é de R$ 774 bilhões em transformação digital até 2028, concentrados em nuvem, inteligência artificial e dados.

O que mudou de forma estrutural

1. O trabalho remoto internacionalizou o mercado — nos dois sentidos. Esta é a maior mudança desde 2017, e o estudo original não podia prevê-la. Profissional brasileiro sênior hoje é contratado por empresa dos Estados Unidos e da Europa sem sair de casa, recebendo em dólar ou euro. Isso é ótimo para quem tem inglês e senioridade — e é exatamente por isso que a empresa brasileira média sente ainda mais falta de gente: ela agora disputa o mesmo profissional com quem paga em outra moeda.

2. As habilidades mudaram de nome. A lista de 2017 falava em nuvem, mobilidade, big data e IoT. A de 2026 fala em Kubernetes, observabilidade, plataforma e CI/CD, engenharia de dados e, acima de tudo, segurança — que deixou de ser um cargo separado para virar responsabilidade de todo mundo que põe coisa em produção.

3. A IA mexeu na porta de entrada, não no topo. O efeito mais discutido do mercado atual: assistentes de código dão conta de boa parte do trabalho repetitivo que antes era a escada de aprendizado do júnior. O resultado prático não é “menos vagas em TI” — é menos vagas de júnior puro e mais exigência de que o iniciante já chegue produzindo. Quem está começando precisa mostrar projeto próprio, não só certificado.

4. A “pejotização” virou o padrão. Boa parte das contratações de tecnologia no Brasil hoje é PJ, não CLT. Isso muda o cálculo de salário — o valor bruto parece maior, mas sem 13º, férias, FGTS e INSS. Faça a conta antes de comparar propostas.

O que envelheceu bem no texto de 2017

Duas coisas, e as duas continuam sendo o melhor conselho do post:

O inglês. Em 2017 era item de lista; em 2026 é o divisor de águas mais brutal da carreira brasileira de TI. É o que separa a vaga local da vaga internacional, e a diferença de remuneração entre as duas costuma ser de múltiplos, não de percentuais. Documentação, erro de compilador, discussão em issue, entrevista: tudo em inglês.

A participação feminina. O estudo apontava 13,3% de mulheres em equipes de rede, com 15,3% das empresas sem nenhuma. O número melhorou desde então, mas devagar, e a área de infraestrutura continua sendo a mais desequilibrada de todas. É lacuna de talento sendo desperdiçada num mercado que reclama de falta de gente.

Se você está entrando agora

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