
Rust começou num hobby de 2006: Graydon Hoare, engenheiro da Mozilla, irritado com o elevador do prédio que caía por software em C. O nome veio do fungo — “superengenheirado para sobreviver”. A Mozilla patrocinou em 2009. A 0.1 pública saiu em 20 de janeiro de 2012. A 1.0, em 15 de maio de 2015. Em 3 de setembro de 2026 a estável é a 1.98.1. Sem coletor de lixo. Sem data race. O kernel Linux 6.1 (dezembro de 2022) aceitou a segunda língua da história do projeto: Rust, ao lado de C.
2006: o elevador e o OCaml
Hoare tinha 29 anos e trabalhava na Mozilla. O elevador do apartamento travava; ele atribuiu a bugs de memória no controlador. A tese: dá para ter desempenho de C++ sem o undefined behavior. Entre 2006 e 2009 o projeto ficou no tempo livre. O primeiro compilador tinha umas 38 mil linhas de OCaml. Tinha coisas que depois sumiram: OOP explícito com obj, análise de typestate, um coletor de lixo.
As influências, nas palavras dele, eram “tecnologia do passado para salvar o futuro de si mesmo”: CLU, Erlang, Newsqueak, Limbo, Mesa, Sather, Alef. Manish Goregaokar resumiu: pesquisa de décadas, não moda.
O nome rust é o da ferrugem dos fungos, não o da chapa. Superfície hostil, organismo teimoso.
2009–2012: a nerd cave
Em 2009 a Mozilla oficializou. Brendan Eich (então CTO) e a Research viram um motor de browser seguro. Entraram Patrick Walton, Niko Matsakis, Felix Klock, Goregaokar. A sala virou “nerd cave”, com placa na porta — apelido de Dave Herman. Ownership já estava no desenho por volta de 2010. O logo, em 2011, saiu de uma coroa de bicicleta (chainring): o R dentro da engrenagem.
O compilador passou a se auto-hospedar, alvo LLVM. Em 20 de janeiro de 2012 saiu a 0.1 para Linux, Windows e macOS — a primeira pública. Bootstrap em 2011 levava horas.
Até a 1.0: o GC some, Graydon sai
De 2012 a 2015 o sistema de tipos virou o Rust de hoje. O GC, raro em 2013, foi removido. Foram-se typestate, pure, ponteiros especiais, sintaxe de channel. Quem vinha de C++ puxou desempenho; quem vinha de script, o Cargo; quem vinha de ML, o tipo.
Em 2013 Hoare saiu do dia a dia. A governança virou federada: core team de seis, depois nove, RFCs a partir de março de 2014. Andrew Binstock no Dr. Dobb’s (jan/2014): língua elegante, adoção lenta porque mudava a cada nightly.
Em 15 de maio de 2015 a 1.0. Compromisso de compatibilidade. Steve Klabnik escreveu dezenas de páginas de docs na reta final. Um ano depois: 1.400 contribuidores no compilador, 5 mil crates. O cargo já era o gerenciador oficial (2014).
Servo, Firefox, o teste de fogo
A Mozilla e a Samsung financiaram o Servo (2012 em diante): motor de browser em Rust, laboratório da língua. Firefox 45 (2016) já embarcava código Rust. Componentes do Servo chegaram no 57 (setembro de 2017), projeto Quantum. Sem o browser, a 1.0 teria sido outra língua.
Fora da Mozilla, cedo: Samsung, Facebook, Dropbox, Tilde (Ember). AWS em 2020. O argumento repetido: desempenho, sem GC, sem data race, experiência de compilador que empurra o código seguro.
Edições: 2018, 2021, 2024
Rust não quebra crate velha no compilador novo. A crate declara a edition no Cargo.toml e convive com a toolchain atual.
- 2015 — a 1.0.
- 2018 (1.31) — módulo,
?mais ergonômico, non-lexical lifetimes. - 2021 (1.56, out/2021) — disjoint capture em closures, resolver de prelude.
- 2024 — com a 1.85.0, em 20 de fevereiro de 2025.
async/await estabilizou na 1.39 (7 de novembro de 2019). Sem isso, o Rust de servidor web não existiria como existe.
2020: a Mozilla corta, nasce a Foundation
Em agosto de 2020 a Mozilla demitiu 250 de mil funcionários. O time do Servo se dissolveu. O core team anunciou uma fundação independente para marcas e domínio. Em 8 de fevereiro de 2021 nasceu a Rust Foundation: AWS, Google, Huawei, Microsoft, Mozilla. Meta e ARM entraram no mesmo ano. Google, em abril de 2021, anunciou Rust no Android Open Source Project.
Em junho de 2026 a OpenAI entrou na Foundation. Marcas e política de trademark geraram briga em 2023 (o rascunho foi mal recebido). Governança federada não é paz eterna — em novembro de 2021 o time de moderação renunciou em protesto. A língua sobreviveu aos dois.
O kernel: 6.1, dezembro de 2022
Linus puxou a infra Rust no merge da 6.1 (Phoronix, 3 de outubro de 2022; estável em 11 de dezembro). Unas 12 mil linhas: build, crates mínimos, “hello world” de módulo. Segunda língua oficial do kernel, depois de C. Continua opcional. Miguel Ojeda lidera o Rust for Linux. Para este blog, é o recado que importa: o C do kernel deixou de ser dogma.
No Linux, hoje
A série estável em 3 de setembro de 2026 é a 1.98.1. O caminho oficial é o rustup, não o apt atrasado da distro:
curl --proto '=https' --tlsv1.2 -sSf https://sh.rustup.rs | sh
source "$HOME/.cargo/env"
rustc --version
cargo new ola && cd ola && cargo run
Dual MIT / Apache-2.0. Ferris, o caranguejo, é mascote da comunidade — não é o logo. O logo é a coroa. O mapa das línguas deste blog: As 7 principais linguagens. O irmão de 2007 no Google: A história da linguagem Go. Toolchain no Linux: Go, Swift.
O que ficou
Um elevador, um OCaml, uma nerd cave, uma 1.0 em 2015, um kernel em 2022, uma 1.98.1 em 2026. Graydon descreveu o aniversário de dez anos (maio de 2025) como infra que ele mal reconhece. O recado não mudou: memória segura sem GC, no metal, no Linux.
Site: rust-lang.org · 1.0: 15 mai 2015 · 1.98.1: blog.rust-lang.org/releases · Foundation: rustfoundation.org · dez anos, nas palavras de Hoare: 10 Years of Stable Rust.