
Resumo em vídeo: este artigo é um resumo detalhado do vídeo “How Linux Took Over the World: 35 Years in 35 Facts”, do canal Jono Bacon — ex-líder da comunidade Ubuntu na Canonical.
URL do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=Ffl2DFHoZdY
Em 25 de agosto de 1991, um estudante finlandês de 21 anos escreveu uma frase que Jono Bacon chama de “uma das previsões mais catastroficamente erradas da história da tecnologia”: “só um hobby, não vai ser grande e profissional”. Trinta e cinco anos depois, esse hobby saiu de um quarto em Helsinque e chegou à superfície de Marte. Bacon conta essa saga em 35 fatos — um para cada ano. Reunimos os mais marcantes aqui, agrupados por capítulo. (Complementa o nosso post de aniversário, Linux faz 35 anos.)
O começo improvável (1991–1994)
O primeiro fato é a mensagem no Usenet. O segundo é delicioso: Linus queria chamar o sistema de “Freax” (free + freak + Unix) — um nome terrível. Foi Ari Lemke, o voluntário que administrava o servidor FTP da universidade, quem odiou tanto o nome que criou um diretório chamado linux por conta própria, sem consultar Linus. O software mais importante do planeta pode ter sido batizado por um sysadmin exercendo um veto silencioso.
A versão 0.01 tinha 10.239 linhas de código — dava para ler tudo num fim de semana (guarde esse número). Em poucos meses, estranhos começaram a contribuir: Ted Ts’o, da América do Norte, entrou sem contrato nem pagamento e, três décadas depois, ainda mantém o ext4. Em janeiro de 1992 veio a decisão que Linus chamaria de “a melhor que já tomou”: relicenciar o kernel sob a GPLv2 — o motor jurídico que transformou generosidade em infraestrutura durável.
Naquele mesmo mês, o respeitado professor Andrew Tanenbaum publicou o veredito acadêmico: “Linux é obsoleto”, por usar design monolítico em vez de microkernel. Guarde a palavra “obsoleto” — voltaremos a ela em 2017. Em 1993 e 1994 surgiram o Slackware (de Patrick Volkerding, ainda hoje a distro mais antiga em atividade) e o Debian — que Ian Murdock batizou juntando Deborah, a namorada, com Ian. A história dele está em A história de Ian Murdock. O kernel 1.0 (1994) já tinha 176 mil linhas e foi comemorado com champagne e cadeiras dobráveis num auditório em Helsinque.
O pinguim e a chegada do dinheiro (1996–2001)
Linus foi mordido por um pinguim num zoológico australiano e brincou que pegara “penguinite” — daí o Tux, desenhado por Larry Ewing em 1996 com software livre. Empresas gastam fortunas em mascotes que não dizem nada; este custou uma mordida e significa tudo. Vieram os desktops (KDE em 1996, GNOME como resposta), e Wall Street enlouqueceu: a Red Hat abriu capital em 1999, e a VA Linux teve alta de ~698% no primeiro dia — recorde que durou 25 anos.
Em dezembro de 2000, a IBM anunciou US$ 1 bilhão de investimento em Linux — e a discussão sobre se aquilo era “coisa séria” acabou ali. A resposta do império veio em 2001: o então CEO da Microsoft, Steve Ballmer, chamou o Linux de “câncer”. Guarde essa frase — a reviravolta chega em 2016.
Processos, Git e a fundação (2003–2008)
Nem tudo foi festa. Em 2003, o grupo SCO processou a IBM, elevando a demanda a US$ 5 bilhões e ameaçando empresas que usavam Linux — o caso pairou anos sobre a comunidade até a SCO falir. Em 2005, um conflito de licença tirou o controle de versão proprietário do projeto, e Linus, irritado, escreveu em cerca de dez dias a base do Git — a fundação de plataformas como GitHub e GitLab (veja A história do Git). O mesmo finlandês criou duas das ferramentas mais influentes da computação.
Em 2007 nasceu a Linux Foundation, com um trabalho peculiar: ajudar empresas concorrentes a cooperar em torno de uma tecnologia que nenhuma delas podia controlar. Ela emprega Linus e Greg Kroah-Hartman sem decidir uma linha do código — os desenvolvedores governam o kernel, a fundação protege o entorno.
O pinguim no seu bolso (2008–2014)
Em outubro de 2008, o Android chegou ao mercado com o kernel Linux no coração — e passou de 3 bilhões de dispositivos ativos em 2021. Por volta de 2010, uma análise mostrou que ~75% das contribuições ao kernel vinham de desenvolvedores pagos por empresas. Traição do espírito voluntário? Bacon discorda com uma frase ótima: “não é vender a alma, é ganhar tão forte que os vencedores trocaram de lado”. Vieram o Raspberry Pi (2012, US$ 35, mais de 60 milhões vendidos), o systemd (2010, adotado apesar das flame wars) e, em 2013, o Docker — que não inventou os containers, mas os tornou fáceis (veja A história do Docker). E teve o famoso momento de 2012 em que Linus levantou o dedo do meio para a Nvidia num palco — anos depois, a Nvidia abriu seus módulos de kernel (a relação atual está em A história da NVIDIA).
O preço do sucesso (2014–2018)
O sucesso criou um novo inimigo: o próprio Linux. Em 2014, o Heartbleed expôs uma falha catastrófica no OpenSSL — software que protegia metade da internet e era mantido por praticamente um desenvolvedor recebendo ~US$ 2.000/ano em doações. A indústria reagiu criando a Core Infrastructure Initiative para financiar os projetos que sustentam a “civilização digital”. E veio a reviravolta que Bacon prometeu: em 2016, a Microsoft — a do “câncer” — entrou na Linux Foundation como membro platinum; hoje mais de 60% dos núcleos no Azure rodam cargas Linux.
Em novembro de 2017, o troco ao professor Tanenbaum: os 500 maiores supercomputadores do mundo passaram a rodar Linux — todos os 500, situação que se mantém desde então. “Professor, como vai o ‘obsoleto’?” Em 2018, a resposta de emergência ao Meltdown/Spectre — coordenada em segredo por Greg Kroah-Hartman — mostrou como anos de stewardship discreto se pagam numa crise.
Marte, Rust e os 40 milhões de linhas (2021–2025)
Em setembro de 2018, Linus fez algo raro para instituições poderosas: reconheceu publicamente que seu comportamento tinha ferido pessoas e tirou um tempo para mudar — voltando com a mesma exigência por qualidade, mas com a língua menos afiada. Em abril de 2021, o helicóptero Ingenuity da NASA voou em Marte rodando Linux: milhares de contribuidores open source podem dizer, literalmente, que algo que ajudaram a construir voou em outro planeta.
Em 2022, o Steam Deck (Arch + KDE) tornou difícil dizer com cara séria que “Linux não roda jogos”; e o Rust entrou no kernel 6.1 — a primeira grande linguagem nova aceitada ao lado do C em décadas. Em 2024, o backdoor do XZ Utils — um dos ataques de cadeia de suprimentos mais sofisticados já tentados — foi barrado porque um engenheiro da Microsoft estranhou meio segundo de lentidão no SSH. E o fato final: em janeiro de 2025, o kernel cruzou 40 milhões de linhas (lembra das 10.239 iniciais?). Um estudo de Harvard e Toronto estimou em US$ 8,8 trilhões o custo de recriar o valor que o software livre entrega hoje.
A lição dos 35 fatos
Bacon fecha com o que importa: ninguém deveria ter construído isto. Nenhum conselho aprovou a versão 0.01, nenhum investidor a financiou. Um estudante escreveu 10 mil linhas, deu de graça e deu de ombros. Então os estranhos apareceram — Ted Ts’o, Volkerding, Ian Murdock, Greg KH, Andres Freund e milhares de outros — e deixaram de ser estranhos. O mais inovador do Linux, diz ele, não é o código-fonte, é a máquina social que cresceu em volta dele. Uma prova viva de que apostar em código aberto, colaboração global e mérito técnico ainda é a melhor aposta — a mesma tese que atravessa a origem do UNIX e a história de Linus Torvalds.
Vale assistir aos 35 minutos do vídeo original — é uma das melhores retrospectivas de Linux já feitas.