Linux no Apple Silicon: Thunderbolt chega aos Macs M3

Capa: Tux conectando um cabo Thunderbolt em um MacBook em estilo cartoon

Rodar Linux num Mac com chip Apple Silicon já deixou de ser experiência de laboratório faz tempo — e acaba de dar mais um salto: o projeto Asahi Linux colocou USB 3.0 e Thunderbolt para funcionar em toda a família M3, e o suporte a USB4/Thunderbolt começou a trilhar o caminho para o kernel oficial. Tudo isso na mesma semana em que Linus Torvalds abriu os testes do Linux 7.3.

O feito: Thunderbolt sem nenhuma ajuda da Apple

O que torna essa conquista impressionante é o contexto: a Apple não fornece documentação nem suporte de engenharia para quem desenvolve sistemas operacionais alternativos para seus chips. Cada driver do Asahi Linux nasce de engenharia reversa — análise de hardware, observação do comportamento do macOS e código aberto escrito do zero.

Nos M3 Pro e M3 Max havia um obstáculo extra: a Apple trocou o controlador USB Type-C das gerações anteriores (CD3217/ACE2) por um novo ACE3, acessado pelo barramento SPMI. Os contribuidores do Asahi destrincharam a mudança e descobriram que, por trás da interface nova, o ACE3 preserva boa parte da arquitetura de registradores do controlador antigo — o que permitiu adaptar o trabalho já feito. Resultado: USB 3.0 e Thunderbolt funcionando em todos os dispositivos da série M3 no Asahi Linux.

Um detalhe de arquitetura que dá a dimensão da complexidade: cada porta Type-C com USB4 dos chips Apple tem um bloco chamado ACIO (Apple Converged I/O), que embute um coprocessador ARM Cortex-M3 próprio, o roteador USB4, controlador NHI e IOMMU. Cada porta do seu Mac esconde, literalmente, um computadorzinho dentro.

Rumo ao kernel oficial: os 19 patches

Em 30 de agosto, o desenvolvedor Sven Peter enviou às listas do kernel uma série de 19 patches com o suporte inicial a USB4/Thunderbolt para os SoCs M1, M2 e M3. Até então, esse código vivia apenas na árvore downstream do Asahi.

É um começo, não a linha de chegada. Por enquanto os patches habilitam conexões XDomain e túneis USB3 sobre USB4; túneis PCIe e DisplayPort ainda não funcionam (exigem mais engenharia reversa), e o suspend foi desabilitado com conexões ativas para evitar erro no retorno. As tabelas oficiais do Asahi para M1 e M2 ainda listam Thunderbolt como “em progresso”.

E um esclarecimento importante para não confundir as notícias: esses patches não fazem parte do Linux 7.3-rc1. As duas coisas aconteceram quase no mesmo dia, mas a série de Thunderbolt está em revisão normal na lista do kernel — o processo de upstream tem seu próprio ritmo.

Enquanto isso: Linux 7.3-rc1 na rua

No mesmo 30 de agosto, Torvalds liberou o Linux 7.3-rc1, fechando uma das maiores janelas de merge da história do kernel: mais de 15 mil commits e uma árvore beirando 41 milhões de linhas. O próprio Torvalds notou o tamanho incomum — com a ressalva de que cerca de um terço do diff é a chegada dos cabeçalhos de registradores das GPUs AMD DCN6. No pacote vêm também preparativos para o AMD Zen 6 e melhorias de desempenho no Btrfs. Se o cronograma de release candidates seguir o padrão, o Linux 7.3 final sai na segunda quinzena de outubro.

O estado do Asahi no M3 hoje

O suporte oficial do Asahi Linux à família M3 foi anunciado em 6 de setembro de 2026, tendo o Fedora Asahi Remix (com KDE Plasma) como distribuição de referência. O que já funciona bem: webcam, microfones, áudio, Wi-Fi, Bluetooth, USB 3.0, Thunderbolt, decodificação de vídeo AV1 acelerada, escalonamento de frequência e gerenciamento térmico — uma estação de desenvolvimento sólida para quem vive no terminal.

O que ainda falta no M3: aceleração 3D da GPU, suspend (fechar a tampa desliga em vez de dormir, na pendência do driver do controlador de display) e saída HDMI. Ou seja: excelente para máquina fixa de desenvolvimento; para uso portátil completo, os M1 e M2 — que já têm GPU acelerada — continuam sendo a experiência mais madura.

E o futuro: M4 e M5

O trabalho não parou no M3: já há esforços voltados aos chips M4 e M5. O M4, porém, traz barreiras arquiteturais novas (como o SPTM, o monitor de proteção de memória da Apple), então o caminho promete ser mais longo. De gráficos e áudio a webcam, energia, USB e agora Thunderbolt, a trajetória do Asahi mostra o quanto o Linux no Apple Silicon avançou desde os primeiros Macs M1 — na base da engenharia reversa e do código aberto.

Conclusão

A pergunta que fica: quando o suporte de hardware estiver no nível do macOS, valeria rodar Linux como sistema principal num Mac Apple Silicon? O hardware é excepcional, e o software livre está cada vez mais perto de aproveitá-lo por inteiro. O Linux acabou de completar 35 anos conquistando praticamente todo tipo de máquina — os Macs, pelo visto, são só mais uma questão de tempo.

Fontes: Phoronix (patches USB4) · Phoronix (7.3-rc1) · Asahi Linux · byteiota (estado do M3)