Project Rainier: o data center de IA da AWS que roda sem NVIDIA

Data center de IA da AWS com racks de servidores e chips Trainium, sem GPUs NVIDIA

Resumo em vídeo: este artigo é um resumo comentado — e checado — do vídeo “No Nvidia Chips Needed! Amazon’s New AI Data Center For Anthropic Is Truly Massive”, do canal CNBC, publicado em 29 de outubro de 2025.
URL do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=vnGC4YS36gU

Em outubro de 2025 a CNBC entrou, com câmera, no que viria a ser o maior aglomerado de chips de IA não NVIDIA do mundo: o Project Rainier, da AWS, em New Carlisle, Indiana. Um ano antes aquilo era plantação de milho. Hoje são sete prédios cheios de Trainium2 desenhados pela própria Amazon, rodando exclusivamente para um único cliente: a Anthropic, dona do Claude.

O vídeo é bom, mas tem quase um ano. Além de resumir o que foi mostrado, este post confere afirmação por afirmação — o que se confirmou, o que mudou e o que envelheceu mal desde então.

Os números do site: 1.200 acres, 30 prédios, 2,2 GW

O terreno tem 1.200 acres (cerca de 486 hectares). Na gravação, sete prédios estavam em operação plena; o projeto completo prevê 30 prédios em três campi, consumindo cerca de 2,2 gigawatts de eletricidade — energia equivalente à de mais de 1,5 milhão de residências na área da concessionária local. A Amazon estima ao menos mais dois anos de obra para fechar o conjunto.

A cronologia mostra a pressa:

  • Fim de 2022 — por volta do lançamento do ChatGPT, a Amazon começa a procurar terreno. A American Electric Power oferece New Carlisle pela abundância de linhas de transmissão de altíssima tensão e uma subestação robusta.
  • Primavera de 2023 — primeiras visitas ao local.
  • 2024 — acordo de US$ 11 bilhões oficializado: o maior investimento de capital da história de Indiana.
  • Setembro de 2024 — início das obras.
  • Outubro de 2025 — sete prédios em operação plena. Do zero ao supercomputador em ~13 meses.

Nada disso saiu de graça para o poder público: o condado concedeu mais de US$ 4 bilhões em isenções de imposto predial e de imposto sobre equipamentos de tecnologia ao longo de 35 anos, e uma lei estadual de 2019 deve poupar outros ~US$ 4 bilhões em 50 anos. Em troca, Indiana fala em mais de US$ 1 bilhão de incremento no PIB e ~9.000 empregos — todos temporários, de construção. Os permanentes prometidos são 1.000, com pelo menos 600 acima do salário médio do condado.

Trainium: por que a AWS tirou a NVIDIA da jogada

Dentro dos prédios não há uma GPU NVIDIA sequer. Duas torres formam um UltraServer, e cada UltraServer carrega 64 chips Trainium2. A Amazon projeta silício desde 2013 e a linhagem é longa:

  • 2013 — Nitro, o chip de virtualização/offload que sustenta o EC2 moderno.
  • 2015 — compra da israelense Annapurna Labs, o time que passou a desenhar tudo.
  • 2018Graviton, o processador de servidor ARM da casa.
  • 2019Inferentia, primeiro chip de IA (inferência).
  • 2021Trainium1, admitidamente uma “geração de aprendizado”.
  • Dezembro de 2024Trainium2, o chip que enche o Project Rainier.

A vantagem alegada não é performance bruta: é custo e disponibilidade. O Trainium é mais simples e menos potente que uma GPU topo de linha, mas a AWS coloca o dobro deles em cada prédio e mantém energia e refrigeração sob controle. E, como resumiu um analista no vídeo, não é preciso “esperar na fila para o Jensen te entregar o de que você precisa”.

Se você quer entender a diferença arquitetural entre GPU e chips dedicados de IA, temos dois posts que cobrem exatamente isso: GPU vs TPU: como os chips de IA funcionam e Google TPUs: arquitetura, gerações e modelos.

Anthropic: inquilina única, estratégia multi-nuvem

O Project Rainier é dedicado a um cliente só. A Anthropic, fundada em 2021 por ex-pesquisadores da OpenAI, usa a AWS como nuvem primária desde o primeiro grande aporte da Amazon, em 2023 — na época do vídeo, cerca de US$ 8 bilhões. As duas empresas co-desenvolveram o chip: o feedback da Anthropic sobre o que o modelo precisa entrou no projeto do Trainium3.

Mas a Anthropic não é monogâmica. Dias antes da reportagem ela fechou com o Google o maior contrato de TPUs da sua história — até 1 milhão de TPUs e mais de 1 GW de capacidade em 2026. Nas palavras do CPO Mike Krieger, a estratégia multi-chip foi a única forma de atender à demanda: “pegamos a capacidade que conseguimos, onde conseguimos”.

Quando perguntado se a Amazon já pensou em comprar a Anthropic, o CEO da AWS, Matt Garman, foi direto: “não. Adoramos a parceria como ela é”.

Energia e água: a conta que sobra para New Carlisle

New Carlisle tem 1.900 habitantes. Recebe diariamente cerca de 4.000 trabalhadores de obra — e, ao lado, uma fábrica de baterias para carros elétricos de US$ 3,5 bilhões, da GM em parceria com a Samsung. As rodovias 20 e 2 ficaram perigosas; a Amazon paga US$ 7 milhões em melhorias viárias (negociando até US$ 15 milhões a mais) e US$ 114 milhões em estação de tratamento de água e rede de esgoto.

A conta de luz é o ponto mais sensível. Indiana isenta grandes data centers do imposto estadual de 7% sobre eletricidade. A concessionária I&M projeta que a demanda de pico mais que dobre — de ~2,8 GW em 2024 para mais de 7 GW até 2030 — e admite que os dois data centers que vai atender (Amazon e um do Google, de US$ 2 bilhões, em Fort Wayne) somam quase toda a carga elétrica que ela serve hoje. Um levantamento citado na reportagem aponta contas mensais até 267% maiores em áreas próximas a novos data centers em relação a cinco anos atrás.

A matriz também pesa: 53% da energia da I&M vem de uma usina nuclear próxima e 35% de uma termelétrica a carvão com fechamento previsto para 2028 — prazo que a administração Trump sinalizou adiar para a maioria das usinas a carvão do país, justamente por causa da IA. Sobre a meta de net zero em 2040, Garman foi honesto: “o caminho daqui até 2040 não vai ser linear. Vai haver necessidade de geração a gás? Acho que absolutamente vai.”

Na água, a AWS afirma resfriar o site com ar externo em 98% do ano, recorrendo à água apenas nos 2% restantes, e reduzir o consumo em 23% ao ano com tratamento no local — mas não abre o número absoluto de galões. O município ainda estuda os aquíferos locais para saber se aguenta Amazon e GM juntas.

O que se confirmou (e o que mudou) desde outubro de 2025

Aqui está a parte que o vídeo não podia ter. Cada linha abaixo foi verificada contra anúncios oficiais e cobertura posterior:

Afirmação no vídeo (out/2025) Situação verificada
~500 mil chips Trainium2 rodando em Indiana Confirmado. A AWS anunciou oficialmente a ativação do Project Rainier em 29/10/2025 com esse volume.
“Mais de 1 milhão de Trainium2 até o fim de 2025” Confirmado. A frota da Anthropic passou de 1 milhão de Trainium2; somando todos os clientes, a AWS informou ~1,4 milhão de chips Trainium implantados nas três gerações.
1.200 acres, 30 prédios, 2,2 GW Confirmado. E veio mais: em 24/11/2025 a AWS anunciou um segundo conjunto de campi de ~US$ 15 bilhões no norte de Indiana (território da NIPSCO), com ~2,4 GW próprios — levando o compromisso da AWS no estado a ~US$ 26 bilhões e 4,6 GW.
Trainium3 “ainda este ano” Cumprido. Anunciado com disponibilidade geral no re:Invent, em 2/12/2025: 3 nm da TSMC, 144 GB de HBM3e, ~2,5 PFLOPS FP8 por chip e UltraServers de até 144 chips — que entregam até 4,4x mais desempenho, 4x mais eficiência energética e quase 4x mais banda de memória que os UltraServers de Trainium2. Já está sendo implantado em New Carlisle. O Trainium4 foi prenunciado no mesmo keynote, com suporte a NVLink Fusion da NVIDIA e entregas previstas para 2027 — ironia à parte.
Trainium2 com “30 a 40% melhor custo-benefício” que GPUs Parcialmente. Andy Jassy passou a citar ~30% sobre GPUs comparáveis para o Trainium2; a faixa de 30–40% virou a métrica do Trainium3 sobre o Trainium2. Não é o mesmo número medindo a mesma coisa.
US$ 8 bilhões da Amazon na Anthropic Correto à época, desatualizado hoje. Em 20/04/2026 a Amazon aportou mais US$ 5 bilhões (total de US$ 13 bilhões) e prometeu até US$ 20 bilhões adicionais atrelados a metas comerciais. Em contrapartida, a Anthropic se comprometeu a gastar mais de US$ 100 bilhões na AWS em dez anos e reservou até 5 GW de capacidade Trainium.
Anthropic fechou até 1 milhão de TPUs com o Google Confirmado (anúncio de 23/10/2025), com mais de 1 GW entrando em operação em 2026.
Garman: “não estou descontando os cheques que a OpenAI está emitindo” Envelheceu mal. Em 03/11/2025 — cinco dias após o vídeo ir ao ar — a AWS fechou contrato de US$ 38 bilhões por sete anos com a OpenAI. Depois veio a ampliação, incluindo ~2 GW de Trainium.
Demanda de pico da I&M dobrando de 2,8 GW para 7+ GW até 2030 Confirmado na projeção da própria concessionária.
Resfriamento a ar em 98% do ano Confirmado. A AWS mantém o número: água só em ~2% das horas de operação, cerca de uma semana por ano. O contexto hídrico também ficou mais claro — o safe yield estimado do aquífero Kankakee é de ~44 milhões de galões/dia, e as duas estações de tratamento de New Carlisle podem entregar até 24 milhões/dia para todo o uso industrial; a Amazon tem permissão para uma fração disso.

Duas coisas relevantes aconteceram depois e merecem entrar no registro:

  • 27 de janeiro de 2026 — o corte de carga. Durante uma tempestade de inverno, o Departamento de Energia dos EUA determinou que o site cortasse 50 MW da rede. Os geradores diesel de emergência entraram, mas o frio congelou linhas pneumáticas em cinco deles, comprometendo o controle de emissões por cinco horas e liberando poluentes ligados a smog e chuva ácida. O caso só veio a público porque a Amazon precisou reportá-lo ao órgão ambiental de Indiana. É a demonstração prática do que os moradores temiam no vídeo: a rede é o gargalo, e o data center é a primeira carga a ser cortada.
  • O negócio de chips virou receita de verdade. Em 2026 a Amazon informou que a linha de silício próprio passou de US$ 20 bilhões de receita anualizada, com mais de US$ 225 bilhões em compromissos plurianuais de Trainium — Anthropic, OpenAI e clientes como a Uber. O Trainium3 saiu praticamente vendido antes de existir em volume.

O que isso significa na prática

Três leituras que valem para quem trabalha com infraestrutura:

1. O monopólio de fato da NVIDIA em treinamento tem rachaduras reais. Não porque o Trainium seja melhor — ele não é, chip a chip — mas porque “bom o suficiente, disponível agora e mais barato” ganha contratos. Google (TPU), Amazon (Trainium) e agora Anthropic comprando dos dois provam que o mercado quer segunda fonte.

2. A restrição virou energia, não silício. Todo o gargalo desta reportagem é elétrico: linhas de transmissão, subestação, isenção de imposto sobre eletricidade, carvão que não fecha, gás que entra, corte de 50 MW numa nevasca. Quem projeta capacidade em 2026 dimensiona megawatts antes de dimensionar racks.

3. A conta social é local e a receita é global. Uma cidade de 1.900 pessoas absorve trânsito, água e risco de brownout enquanto o valor gerado é contabilizado em Seattle. Como resumiu um dos analistas: “vai ser uma briga constante para os construtores de data center, porque pela quantidade de terra e recursos que usam, eles não geram tantos empregos assim”.

Se quiser o pano de fundo de como a Amazon chegou até aqui, vale A história de Jeff Bezos: da garagem à nuvem. E se a ideia é rodar IA por conta própria em vez de alugar 2,2 GW da AWS, comece por Rodando IA local no Linux com Ollama ou pelo servidor de IA recondicionado com 64 GB de VRAM.