A história de Jeff Bezos: da garagem à nuvem

Jeff Bezos em HQ diante dos logos da Amazon e da Blue Origin

Em 1994, um vice-presidente de 30 anos do fundo D.E. Shaw leu que a web crescia 2.300% ao ano, fez uma lista de 20 produtos e escolheu livros. Saiu do emprego, atravessou o país num Chevy Blazer 88 e montou um site na garagem de Bellevue, mesa feita de porta. Trinta e dois anos depois, a Amazon é a maior empresa do mundo por receita, a AWS é o motor de lucro da nuvem — e Jeffrey Preston Bezos (Albuquerque, 12 de janeiro de 1964) voltou a ser CEO, desta vez de um laboratório de IA.

Princeton, Wall Street e a estatística de 2.300%

Nascido Jorgensen, adotado pelo cubano Miguel “Mike” Bezos, Jeff cresceu em Houston e Miami. Orador da turma no colégio. Em 1986 saiu de Princeton summa cum laude em engenharia elétrica e ciência da computação. Passou por Fitel (telecom), Bankers Trust (vice-presidente aos 26) e, em 1990, pelo fundo quantitativo D.E. Shaw — o mais jovem SVP da casa.

David Shaw pediu que ele estudasse a internet. O número (uso da web crescendo mais de 2.000% ao ano) não deixava margem para “depois”. Shaw tentou convencê-lo a ficar: a ideia era boa, mas melhor para quem ainda não tinha um bom emprego. Bezos aplicou o que chamou de regret minimization — aos 80 anos, ia se arrepender mais de não ter tentado. MacKenzie Tuttle (depois Scott) saiu com ele.

1994: Cadabra, Amazon e a mesa de porta

A empresa começou como Cadabra. O nome parecia “cadaver”. Amazon veio do rio — o mais longo, a intenção de ter o catálogo mais longo. Sede em Seattle porque a Ingram (distribuidora de livros) ficava perto e porque a Microsoft tinha enchido a cidade de engenheiros. O site foi ao ar em 1995. IPO em 1997. Durante anos o mantra foi participação de mercado, não lucro. Wall Street xingou; Bezos repetia “Day 1”.

A mesa de porta (door desk) virou folclore interno: se a mesa dá para ser uma porta, o dinheiro foi para o cliente. A cultura que saiu daí — press release interno antes do código, “two-pizza teams”, o e-mail de 2013 pedindo narrativas em vez de PowerPoint — é tão copiada quanto criticada.

De livraria a “everything store”

Prime em 2005: frete em dois dias por assinatura, na época um suicídio de margem. Kindle em 2007: a Amazon passou a controlar o aparelho, a loja e o arquivo. Echo e Alexa em 2014. Whole Foods em 2017. Fire Phone foi um fiasco. Cada aposta seguia a mesma lógica: crescer o grafo de clientes, dados e logística até o custo de servir o próximo pedido cair.

O lado feio veio junto. Relatos de ritmo de galpão, impostos, poder de barganha com editoras e o antitrust americano e europeu. Bezos argumenta escala e preço ao consumidor. Os críticos argumentam monopólio com sorriso laranja.

AWS, 2006: o motor que o varejo esconde

Por volta de 2003, num retiro na casa de Bezos, ele e Andy Jassy (então “shadow” técnico do fundador) desenharam uma plataforma de serviços internos. Em 2006 saíram S3 e EC2. A AWS virou, em silêncio, o pedaço que dá lucro: fração da receita, fatia desproporcional do operating income. Quase tudo isso roda Linux — Amazon Linux, Nitro, Graviton. Sem o kernel de Linus Torvalds, não existe a nuvem que a Amazon vende.

Jassy tocou a AWS desde o time de 57 pessoas. Em 5 de julho de 2021 — aniversário de 27 anos da Amazon — assumiu o CEO. Bezos foi para executive chairman.

Blue Origin e o voo de 20 de julho de 2021

A Blue Origin existe desde 2000, anos antes do primeiro lucro da Amazon. New Shepard é o foguete suborbital reutilizável; New Glenn, o orbital. Em 20 de julho de 2021, 52 anos depois da Apollo 11, Bezos voou com o irmão Mark, Wally Funk e Oliver Daemen. A rivalidade com a SpaceX de Elon Musk é pública e permanente: cronograma, reuso, contrato lunar.

Em 2026 a Blue Origin preparava rodada externa da ordem de US$ 10 bilhões, valuation reportado em US$ 130 bilhões — depois de um acidente de foguete em maio. Bezos continua injetando fortuna pessoal. O objetivo declarado nunca mudou: milhões de pessoas vivendo e trabalhando no espaço, Terra como distrito de preservação.

Washington Post, Earth Fund, Prometheus

Em 2013 comprou o Washington Post da família Graham por US$ 250 milhões. No começo, “runway” financeiro e redação maior. A partir de 2023, prejuízo na casa das dezenas de milhões, buyouts, corte de metade do orçamento da newsroom em 2026 e a decisão de não endossar candidato em 2024. O dono que salvou o jornal passou a administrá-lo com a mesma obsessão de eficiência da Amazon — e pagou em reputação.

No divórcio de 2019, MacKenzie Scott ficou com um quarto da participação que ele tinha na Amazon (então ~16%). Bezos pledged US$ 10 bilhões ao Bezos Earth Fund até 2030 e US$ 2 bilhões ao Day One Fund (moradia e pré-escola). Em 2026, já como um dos três homens mais ricos do mundo (fortuna flutuando na casa dos US$ 220–280 bilhões, conforme o índice), co-fundou a Prometheus com Vik Bajaj: IA para o “loop sonho–construção”, engenharia de coisas físicas. Disse à CNBC que ser co-CEO de novo é “Type 2 fun” — só é divertido depois que você desce a montanha. Prometheus, Blue Origin e IA na Amazon ocupam o grosso do calendário.

O que ficou

Bezos não inventou o comércio eletrônico nem a nuvem. Inventou a disciplina de tratar os dois como um sistema: catálogo, logística, API, margem reinvestida. O Linux embaixo da AWS é o detalhe que a biografia de negócios quase nunca escreve — e o que interessa aqui. Day 1, para o kernel, já dura 35 anos; para a Amazon, 32. Os dois ainda não chegaram no Day 2.