
Aos 14 anos, Aaron Hillel Swartz (Highland Park, Illinois, 8 de novembro de 1986) ajudou a escrever o RSS 1.0. Aos 26, em 11 de janeiro de 2013, morreu no apartamento de Brooklyn enquanto o Departamento de Justiça dos EUA o processava por baixar artigos acadêmicos. Entre os dois pontos: Creative Commons, Markdown, Reddit, Open Library, PACER, o manifesto do acesso aberto e a campanha que derrubou o SOPA. Este texto é a biografia técnica — sem martírio de cartaz, sem suavizar o processo.
Highland Park: wiki aos 12, RSS aos 14
Filho de Robert e Susan Swartz, Aaron programava cedo. Aos 12 fez The Info Network, um wiki antes da Wikipedia; ficou entre os finalistas do ArsDigita Prize. Aos 14 estava no grupo de trabalho RDF do W3C, com Tim Berners-Lee, e saiu como coautor da especificação RSS 1.0 — o formato que ainda alimenta leitores de feed, podcast e boa parte da web que não cabe no algoritmo de uma rede social.
Abandonou o ensino médio. Passou por Stanford e saiu. O padrão se repetiria: instituição grande, impaciência, projeto próprio.
Creative Commons, Markdown e web.py
Lawrence Lessig o puxou para o recém-nascido Creative Commons. Aaron escreveu a arquitetura das licenças em formato que máquina lê — o RDF por trás do selo CC. Sem isso, “CC BY” seria só um PDF jurídico. Com isso, virou metadado.
Com John Gruber, ajudou a fechar a sintaxe do Markdown. Escreveu o framework Python web.py, mínimo de propósito, usado em produção no Reddit e em dezenas de ferramentas pequenas. O gosto era o mesmo em tudo: formato simples, especificável, que qualquer um pudesse implementar.
Infogami, Reddit e a Condé Nast
No Y Combinator, o Infogami de Aaron se fundiu ao Reddit de Steve Huffman e Alexis Ohanian. A Condé Nast comprou o conjunto. Aaron virou, de uma hora para outra, funcionário num escritório da Wired. Durou pouco: cultura corporativa, ritmo de revista, zero interesse. Saiu em 2007 com dinheiro de vesting e a fama de cofundador — crédito que Huffman nem sempre gostou de dividir, e que a história do produto justifica só em parte. O que ele de fato fez: código, web.py, teimosia de arquitetura.
Depois veio o Open Library, no Internet Archive de Brewster Kahle: um catálogo público de todos os livros, não só os que uma livraria quer vender. A obsessão era a mesma do RSS: informação que já existe, trancada por formato, preço ou ToS.
PACER, 2008: documento público com pedágio
O PACER (Public Access to Court Electronic Records) cobra por página de processo federal — documento que já é público. Com Carl Malamud, Aaron escreveu um script Perl que, a partir de bibliotecas com acesso gratuito, baixou cerca de 2,7 milhões de documentos e colocou fora do paywall. O FBI abriu investigação. Não houve denúncia.
No mesmo ano ele publicou o Guerrilla Open Access Manifesto: a tese de que trancar ciência paga com dinheiro público atrás de editora é um erro político, não um detalhe de copyright. O texto é curto, militante e, para o Departamento de Justiça, viria a ser lido como intenção.
JSTOR, MIT e o CFAA
Entre setembro de 2010 e janeiro de 2011, Aaron ligou um laptop na rede do MIT — conta de convidado, armário de rede destrancado, script — e baixou acervo em massa da JSTOR, biblioteca digital de papers acadêmicos. A JSTOR, depois de receber os discos de volta, não quis processar. O MIT oscilou. O governo federal não.
Em 6 de janeiro de 2011 a polícia do MIT o prendeu. A promotoria de Massachusetts (Carmen Ortiz, Stephen Heymann) enquadrou o caso no Computer Fraud and Abuse Act: dezenas de acusações federais, pena teórica na casa de 30 a 50 anos e multa de milhões, conforme a denúncia vigente. O CFAA de 1986 trata “acesso não autorizado” com a mesma palavra que cobre tanto o invasor de banco quanto o usuário que viola um termo de uso. Aaron não vendeu os files, não derrubou serviço, não pediu resgate. O processo seguiu mesmo assim. Acordo com cadeia efetiva estava na mesa; ele recusou os termos.
SOPA, Demand Progress, 11 de janeiro
Em paralelo, em 2010, fundou o Demand Progress. Em 2012 o grupo foi peça central contra o SOPA/PIPA — os projetos que teriam dado ao governo e a titulares de copyright um botão para derrubar DNS de sites acusados de pirataria. A blackout da Wikipedia e o recuo do Congresso são o capítulo em que a política de internet dos EUA ainda cita o nome dele com orgulho.
Em 11 de janeiro de 2013, Aaron foi encontrado morto no apartamento de Brooklyn. Tinha 26 anos. A família declarou: a morte não era só tragédia pessoal, era produto de um sistema penal de intimidação e excesso de acusação. Tim Berners-Lee escreveu: “Aaron dead. World wanderers, we have lost a wise elder.” O documentário The Internet’s Own Boy (2014) reconstitui o processo. O “Aaron’s Law”, tentativa de estreitar o CFAA, não passou.
O que ficou
RSS ainda entrega o que o feed de rede social recusa. Creative Commons é o default de Wikipedia, Commons, paper preprint e boa parte do que este blog pode republicar. Markdown é a sintaxe em que se escreve README, post e lei. O PACER continua cobrando. A JSTOR abriu mais acervo. O CFAA continua largo.
Swartz não é santo de repositório: o download em massa no MIT foi deliberado, o manifesto assumia o risco, o processo foi desproporcional. Os três fatos cabem no mesmo parágrafo. O que não cabe é tratar o desfecho como nota de rodapé de “prodígio que se foi”. Ele construiu formatos. Os formatos ficaram. O processo, também.
No mesmo fio deste blog: pioneiros do opensource, Linus Torvalds e a tensão de sempre entre código aberto e o resto do direito.