A história de Zuckerberg e Saverin: o quarto e o cubo

Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin de pé no pátio nevado de Harvard diante do cubo azul oficial do Facebook

Em 4 de fevereiro de 2004 Mark Elliot Zuckerberg no ar o TheFacebook.com, de um quarto da Kirkland House, em Harvard. Eduardo Luiz Saverin, brasileiro de São Paulo, pôs os primeiros milhares de dólares e virou o CFO. Vinte e dois anos depois a Meta paga dezessete bilhões a 47 estados americanos por vício de adolescente, o WhatsApp que ela comprou tem 3 bilhões de usuários, e Saverin — ~2% da empresa, morador de Singapura — segue o homem mais rico da ilha. A capa é o pátio de tijolo vermelho no inverno: os dois de pé, o cubo azul no meio.

Dobbs Ferry, Facemash, Kirkland

Zuckerberg nasceu em White Plains, Nova York, em 14 de maio de 1984, criou-se em Dobbs Ferry, filho de dentista e psiquiatra, judeu, o único menino entre três irmãs. Phillips Exeter, Harvard em 2002, Kirkland House, psicologia e computação. Em 28 de outubro de 2003 no ar o Facemash: duas fotos de colega, vote na mais gostosa, raspado dos facebooks dos dorms. Harvard processou internamente; ele pediu desculpa. A lição que tirou não foi “não faça”. Foi “faça com login”.

Os gêmeos Winklevoss e Divya Narendra tinham o HarvardConnection (depois ConnectU) e chamaram Zuckerberg para o código. Ele atrasou. Em 4 de fevereiro de 2004 o TheFacebook subiu. Dustin Moskovitz, Chris Hughes, Andrew McCollum. Saverin, de Eliot House, economia, já tinha ganhado dinheiro com petróleo e uma pesquisa de cupim: o sócio que entendia de cheque. Uns US$ 1 mil no começo, da ordem de US$ 15–18 mil no total, ~30% da empresa no papel. O filme The Social Network (2010) inventa tom; os e-mails, não.

Palo Alto, Parker, a diluição

O site saiu de Harvard para Stanford, Columbia, Yale. No verão de 2004 Zuckerberg foi para Palo Alto. Sean Parker (Napster) entrou, virou presidente, apresentou o Vale. Accel, maio de 2005, US$ 12,7 milhões. Saverin ficou em Nova York, cuidando de conta e de anúncio. Em 7 de janeiro de 2005 a empresa emitiu mais de 9 milhões de ações para Zuckerberg, Moskovitz e Parker. A fatia de Saverin, sem cláusula anti-diluição, despencou — de uns 24% para menos de 10%, e nas contas mais feias para perto de zero. Ele processou. Zuckerberg, nos e-mails que o Business Insider publicou em 2012, falava em “cagar” o sócio. O advogado da empresa avisou: isso é quebra de dever fiduciário.

O acordo, 2009, confidencial. O que se sabe: o título de cofundador voltou, a fatia ficou na casa de 4–5% na época (hoje os filings apontam ~2% da Meta). Os Winklevoss/Narendra fecharam em 2008 por ~US$ 65 milhões em caixa e ação. Ninguém admitiu culpa. O filme fez de Saverin o rosto da traição; o extrato fez dele bilionário.

IPO, Instagram, o recado do Koum

Um bilhão de usuários em 2012. IPO em 18 de maio de 2012, US$ 38 a ação, ~US$ 104 bilhões — o maior IPO de tecnologia da época, e um fiasco de pregão. Instagram, abril de 2012, US$ 1 bilhão, Kevin Systrom. WhatsApp, fevereiro de 2014, ~US$ 19,3 bilhões — a história do menino de Fastiv está em A história de Jan Koum. Oculus. News Feed. Like. O grafo.

Por baixo, para quem lê este blog: PHP no começo, depois HipHop, depois HHVM (o post de 2017, reescrito, está em Instalando HHVM no Ubuntu), depois Hack. React, GraphQL, Open Compute (o servidor que o Facebook desenhou e abriu). Cassandra. A engenharia de 2004 cabia num dormitório; a de 2012 já era um dos maiores deploys PHP do planeta — e o motivo de o HHVM existir.

Cambridge Analytica, Meta, 2026

2016: notícia falsa, Rússia, eleição americana. 2018: Cambridge Analytica, 87 milhões de perfis, Zuckerberg no Congresso. #DeleteFacebook — o tuíte do Acton, o outro cofundador do WhatsApp. Em 28 de outubro de 2021 a empresa virou Meta Platforms: o metaverso, os óculos, o prejuízo da Reality Labs. Threads em 2023. Llama, o modelo aberto (o mais aberto que a Meta admite), guerra com a OpenAI. Em casa, o feed virou Reels contra o TikTok.

Em agosto de 2026 a Meta fechou com 47 estados, DC e territórios um acordo da ordem de US$ 17 bilhões por vício e dano a criança e adolescente: limite de duas horas para menor, verificação de idade, like count fora, toque a cada 15 minutos, fundação de pesquisa. A empresa não admitiu culpa. Zuckerberg tinha deposto no começo do ano. No mesmo ciclo, bilhões em capex de IA. O menino do Facemash virou o réu permanente da atenção.

Saverin: Singapura, B Capital, o Liverpool

Eduardo Luiz Saverin nasceu em São Paulo em 19 de março de 1982, família judaica, Rio, depois Miami. Harvard, economia. Em 2011 renunciou à cidadania americana e ficou em Singapura — sem imposto sobre ganho de capital, semanas antes do IPO. A imprensa falou em conta; ele falou em morar. Casou com Elaine Andriejanssen em 2015. Em 2015 fundou a B Capital com Raj Ganguly (ex-Bain, amigo). Dezenas de bilhões sob gestão, escritório em Singapura.

Forbes Ásia, setembro de 2026: Saverin é o mais rico de Singapura pelo quarto ano, US$ 32,9 bilhões, mesmo depois de perder US$ 10,1 bilhões no ano (a Meta caiu 25%). Bloomberg o põe na casa dos US$ 33 bilhões, ~2% da Meta. Em 2026 entrou no consórcio 1892 Holdings, que comprou 38% do Liverpool. O brasileiro que o filme retratou como otário é, em 2026, o dono silencioso de um pedaço do Facebook e de um clube inglês. Quase não dá entrevista. Zuckerberg dá demais.

O que ficou

Dois universitários, um site de foto, um cheque de mil dólares e um processo. O Facebook ligou 3 bilhões de pessoas e vendeu o grafo para o anunciante. Zuckerberg nunca largou o controle — ação com voto, CEO, chairman. Saverin largou o prédio e ficou com o papel. Os Winklevoss compraram Bitcoin com o acordo. O dormitório de Kirkland, na capa, ainda é de tijolo e neve. O cubo azul no pátio é o que saiu do quarto.

A história é dos dois. O nome que o mundo fala é o do programador. O nome no extrato de Singapura é o do brasileiro que pagou o primeiro servidor.