A história da HP

A história da HP

Antes de existir “Vale do Silício”, existia uma garagem de madeira em Palo Alto. Ali, em 1939, dois engenheiros recém-formados de Stanford fundaram a empresa que definiria o modelo de todas as startups seguintes: a Hewlett-Packard. Esta é a história da HP — da garagem ao colosso, das calculadoras que aposentaram a régua de cálculo às impressoras em cada escritório, passando por fusões desastrosas e pela cisão que a dividiu em duas.

1939: a garagem e o cara-ou-coroa

Bill Hewlett e Dave Packard começaram com US$ 538 e uma garagem alugada na Addison Avenue — hoje tombada como “berço do Vale do Silício”. A ordem dos nomes? Decidida no cara-ou-coroa: deu Hewlett-Packard em vez de Packard-Hewlett. O primeiro produto foi o oscilador de áudio HP 200A, mais barato e estável que a concorrência — e o primeiro grande cliente foi a Disney, que comprou oito unidades para calibrar o som do filme Fantasia.

O “HP Way”

Nas décadas seguintes, a HP cresceu vendendo instrumentos de medição de excelência — osciloscópios, geradores de sinal, analisadores. Mas sua exportação mais influente foi cultural: o HP Way, um estilo de gestão radical para a época — confiança nos funcionários, horário flexível, participação nos lucros, portas abertas e a regra de “gerenciar andando por aí”. Boa parte do que o Vale do Silício vende como cultura própria nasceu ali.

Da calculadora ao computador

Em 1968, a HP lançou o 9100A, uma “calculadora de mesa” programável que a imprensa chamou de personal computer — possivelmente o primeiro uso comercial do termo. Em 1972 veio o golpe de misericórdia na régua de cálculo: a HP-35, primeira calculadora científica de bolso do mundo. No mesmo ano a empresa entrou nos minicomputadores com o HP 3000, e nos anos 80 desenvolveu sua própria arquitetura RISC, o PA-RISC, e o Unix próprio, o HP-UX — que por décadas rodou missão crítica em bancos e telecoms (e cujo fim de vida oficial veio apenas nos anos 2020).

1984: o império da tinta

Se a HP fosse só impressoras, já seria gigante. Em 1984 ela lançou a LaserJet — a primeira impressora laser de mesa de sucesso — e a ThinkJet, pioneira do jato de tinta térmico. O modelo de negócio “impressora barata, tinta cara” virou uma das máquinas de lucro mais duradouras da tecnologia. Para nós do Linux, ficou um legado curioso e positivo: o HPLIP, driver open source oficial da HP, fez das impressoras HP historicamente as mais amigas do pinguim.

Anos 2000: fusões, escândalos e desastres

A era moderna foi turbulenta. Em 1999, os instrumentos de medição — a alma original — saíram como Agilent (hoje Keysight). Em 2002, Carly Fiorina comprou a Compaq por US$ 19 bilhões numa fusão contestada até por herdeiros dos fundadores. Em 2006, o escândalo de espionagem do próprio conselho derrubou a presidente do board. E em 2011 veio o ano do caos: a HP matou o TouchPad e o webOS semanas após o lançamento e comprou a britânica Autonomy por US$ 11 bilhões — para dar baixa de US$ 8,8 bilhões um ano depois, alegando fraude contábil. O caso rendeu processos por mais de uma década.

2015: uma HP vira duas

Em novembro de 2015, a empresa se partiu ao meio: a HP Inc. ficou com PCs e impressoras (e o ticker histórico HPQ), enquanto a Hewlett Packard Enterprise (HPE) levou servidores, storage, redes e serviços. A HPE seguiu comprando peso do mundo Unix/HPC — SGI em 2016, Cray em 2019 — e hoje monta alguns dos maiores supercomputadores do planeta (o Frontier e o El Capitan, primeiros exascale, são máquinas HPE Cray rodando Linux). Do lado da HP Inc., os ProBooks e Spectres seguem entre os notebooks mais vendidos do mundo.

Linha do tempo

  • 1939 — Hewlett e Packard fundam a HP na garagem de Palo Alto; oscilador HP 200A (a Disney compra 8 para Fantasia)
  • 1968 — HP 9100A, a “calculadora de mesa” programável
  • 1972 — HP-35, primeira calculadora científica de bolso
  • anos 1980 — Arquitetura PA-RISC e o Unix próprio, HP-UX
  • 1984 — LaserJet e ThinkJet: o império da impressão
  • 1999 — Instrumentos de medição saem como Agilent
  • 2002 — Compra da Compaq (US$ 19 bilhões)
  • 2011 — Fim do TouchPad/webOS; compra da Autonomy (US$ 11 bilhões)
  • 2015 — Cisão em HP Inc. (PCs/impressoras) e HPE (servidores/serviços)
  • 2016–2019 — HPE compra SGI e Cray
  • anos 2020 — Supercomputadores exascale HPE Cray (Frontier, El Capitan) rodando Linux

O legado

Para o mundo Linux e da infraestrutura, a HP está por toda parte: os servidores ProLiant (herança Compaq) estão em qualquer datacenter, o iLO definiu o padrão de gerência remota, e supercomputação hoje é praticamente sinônimo de HPE Cray + Linux. Mas o maior legado talvez seja o simbólico: toda startup que começa em garagem, com cultura de engenheiro e gestão horizontal, está — saiba ou não — imitando dois caras de Palo Alto em 1939.

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