A história de Carlos Morimoto e o Kurumin Linux

Carlos Morimoto em HQ diante do mascote do Kurumin e do pôr do sol

No Brasil dos anos 2000, Linux no desktop ainda era partição, lilo e fórum em inglês. Carlos Eduardo Morimoto da Silva — o cara do Guia do Hardware — fez o contrário: um live CD em português, KDE, ícones mágicos, cabendo num mini-CD. Chamou de Kurumin, do tupi-guarani curumim, menino. Por uns anos foi a distro mais falada do país. Em janeiro de 2008 ele mesmo encerrou. O legado ficou nos livros, no Hardware.com.br e em uma geração que instalou Linux pela primeira vez sem medo.

Do BASIC ao Guia do Hardware

Morimoto começou cedo: BASIC aos sete, manutenção de micro aos treze, primeiro livro (Hardware PC, Book Express) aos dezessete. Formado em análise de sistemas, se dizia autodidata. O Linux chegou em 1998 num CD do Conectiva 2.0 Marumbi — a distro brasileira da época, não um hobby importado.

Em 1999 fundou o Guia do Hardware (depois Hardware.com.br): artigos, fórum, e-books. Em 2001 soltou Entendendo e Dominando o Linux de graça na rede. A lógica era a mesma que o Kurumin herdaria: texto em português, passo a passo, sem exigir que o leitor já fosse sysadmin. Em 2005 abriu a GDH Press. Hardware, o Guia Definitivo vendeu milhares; Redes, Servidores Linux, Kurumin 7, Guia Prático ainda circulam em hardware.com.br/livros.

Cinco vezes seguidas, 2003 a 2007, o BR-Linux elegeu-o Personalidade da Comunidade Livre Nacional.

14 de janeiro de 2003: o CD que salvava o Windows

O Kurumin não nasceu para ser “a distro do Brasil”. Nasceu no fim de dezembro de 2002 para um problema chato: o CD-ROM do Guia do Hardware — livros e o site offline — inútil quando o Windows do cliente não subia. A primeira versão de testes saiu em 14 de janeiro de 2003: live CD pequeno, fácil, em português, para pesquisar o próprio CD com o PC quebrado.

O anúncio no site puxou gente. Morimoto levou adiante. A base era Knoppix (detecção de hardware do Klaus Knopper), depois pedaços do Kanotix e pacotes Debian. Desktop KDE. O “K” do nome serve aos dois: Knoppix e KDE. O resto é curumim.

O DistroWatch chegou a listá-lo como a distribuição mais popular do Brasil. O governo do Paraná adotou. Uma entrevista de 2010 fala em algo entre um e dois milhões de downloads — número de época, sem auditoria, mas o tamanho da conversa era esse.

O que o Kurumin acertou

Live CD: botava o disco, reiniciava, Linux. Sem formatar. Mini-CD de 80 mm nas primeiras versões — cabia na carteira. Hardware detection herdada do Knoppix: placa de som, modem, rede. Ícones mágicos (Kommander por cima de bash): um clique instalava o que o Windows-user queria — driver NVIDIA, OpenOffice, o recado era “não precisa do aptitude”. Instalador gráfico para quem topava gravar no HD. Tudo em pt-BR, incluindo o Grub.

O mascote era um Tux magro de cocar e arco — arte de colaboradores, Luciano Silva no wallpaper. A 7.0 (2007) foi o auge: KDE maduro, livro-guia, ainda kernel velho o bastante para winmodem. Em maio de 2003 o Augusto Campos testou o 1.4 beta no BR-Linux; o ciclo era tão rápido que o CD no correio já nascia desatualizado.

Não foi a primeira distro brasileira — a Conectiva veio antes. Foi a que fez o desktop parecer possível na sala de casa, no PC do primo, no laboratório da escola.

2008: o fim, e o NG

Em janeiro de 2008 Morimoto descontinuou. A nota oficial é seca: sucesso de uso, fracasso em juntar desenvolvedores ativos, cobrança por recurso novo, kernel antigo demais para máquina nova. As ISOs ficaram no ar para micro velho. O livro Kurumin 7 virou guia genérico de Debian/KDE.

Entre março de 2008 e janeiro de 2009 o Kurumin NG — Leandro Soares, cara do Kalango, base Kubuntu — tentou suceder. Anúncio, recuo, entrevista, recuo de novo. Morimoto cortou o vínculo. A página do 7.0r3 registrou: “desastrada tentativa de continuação”. Não houve 8.

2014: o Guia fecha o ciclo

Em 28 de fevereiro de 2014 ele publicou “O fim de uma era”: a informática do portal tinha envelhecido, a equipe ia para outro projeto. Colaboradores disseram o restante com respeito: Morimoto saiu da vida pública de TI para se dedicar ao Hare Krishna (Caitanya Chandra Dasa), no Rio Grande do Sul. Os livros continuam. O fórum virou arquivo. Não houve “volta do Kurumin”.

A entrevista da Infomedia (2010, Guarulhos) ainda é o melhor retrato do autor falando do projeto:

O que ficou

Ubuntu, Debian e o live USB mataram a necessidade de um Knoppix nacional. O jeito Morimoto — texto claro, ISO que boota, sem mistério — é o que toda distro “para iniciante” ainda copia. A linhagem Debian está em A história de Ian Murdock. O kernel, em A história de Linus Torvalds e Linux faz 35 anos. O desktop brasileiro da época, neste post.

Kurumin 7.0r3, 2008. Guia do Hardware, 2014. O curumim não voltou. Quem aprendeu Linux num mini-CD amarelo ainda lembra o nome.