
Em julho de 2002 um finlandês que já tinha escrito o irssi soltou um IMAP feito para não ser o Courier nem o UW. Chamou o bicho de Dovecot — pombal. Cinco anos depois, em 13 de abril de 2007, saiu a 1.0.0. Timo Sirainen anotou: “quase cinco anos, mas está pronto”. Vinte e quatro anos depois o Dovecot 2.4.5 (28 de agosto de 2026) ainda é o IMAP que a maior parte da internet usa: a Open Email Survey de 2020 mediu 2,9 milhões de servidores e 76,9% de share. O Postfix entrega; o Dovecot guarda e devolve.
Tampere, irssi e um IMAP que não caísse
Timo Sirainen vinha do IRC. O irssi, cliente de terminal que uma geração inteira de admin Linux usou, é dele. No começo dos anos 2000 ele trabalhava numa empresa pequena na Finlândia que precisava de IMAP para o correio interno. Courier era o padrão “leve”. UW IMAP, o da Universidade de Washington, era o padrão acadêmico. Os dois tinham fama de buraco e de configuração que dói. Timo queria o contrário: segurança por desenho, rápido, fácil de levantar.
O nome é o prédio: dovecot é o pombal, as caixas na parede onde o pombo entra. Pigeonhole, o projeto de Sieve que veio depois, é o nicho — o escaninho do correio. A metáfora cabe: IMAP não transporta carta (isso é SMTP). IMAP é o armário. O logo teal — duas pombas/chevrons em voo — é essa parede.
Os primeiros anos foram hobby e contrato. Rackspace o levou um ano para dentro. Portugal Telecom, meio ano. Empresas pagavam feature; o código abria. Em 2011 ele formalizou a Dovecot Oy, modelo open core: o CE de graça, o que telco e ISP grande precisam (cluster, suporte, depois o Pro) pago. O salário dos devs do aberto saía daí. Ele disse isso na época e a empresa repetiu em 2025, quando alguém perguntou se o Dovecot “ia ficar proprietário”.
2002–2007: cinco anos até a 1.0
A primeira pública é julho de 2002. A 1.0.0 só em 13 de abril de 2007, depois de reescrever quase tudo. Timo avisou na lista: não esperava 1.0.1 tão cedo, a menos que alguém estivesse sentado em bug grave esperando a 1.0. Quem queria feature nova que fosse para a 1.1. mbox e Maildir desde o começo — compatível com Courier e UW, para o cliente que já lia a caixa no disco não quebrar. dbox nasceu ainda na série 1.x (alpha da 1.0, redesenho na 1.1) e só amadureceu de verdade na 2.0.
O desenho de processo já era o do Dovecot que conhecemos: um master, filhos com privilégio mínimo, dovenull e dovecot como usuários de sistema. Login separado do IMAP. Índice próprio para flag e cache, para não reler a Maildir inteira a cada IDLE. Quem vinha de Courier sentia a diferença no SELECT de caixa grande.
2.0, agosto de 2010: LMTP, mdbox, doveadm
A 2.0.0 saiu em 16 de agosto de 2010. Timo estava “cautelosamente otimista” de que a 2.0.1 não precisaria vir em dias. Mudou o chão:
- Dois usuários de sistema por default:
dovecotedovenull. - LMTP de verdade — o jeito certo de o Postfix (e o Exim) entregarem na caixa sem LDA a cada mensagem.
- mdbox (multi-dbox): vários mails por arquivo, índices em que o Dovecot confia. Perder o índice é perder flag — o aviso ainda está na doc.
doveadmno lugar de meia dúzia de binário. Quota, kick, replicação, dump de índice.- Pigeonhole passou a instalar sem patch no core.
Stephan Bosch fechou o Pigeonhole 0.2.0 semanas depois, para a 2.0.2: Sieve (RFC 5228) e ManageSieve (RFC 5804) num pacote só. O nome, de novo, é o nicho do pombal. Vacation, fileinto, duplicate, depois IMAPSIEVE. Quem filtra no servidor em 2026 ainda fala Sieve; o interpretador é esse.
2.2 e 2.3: dsync, MSA, Lua
A 2.2.0 (12 de abril de 2013) reescreveu o dsync e pôs flag por usuário em mailbox compartilhada. Extensões IMAP que o cliente moderno espera. A 2.3.0 (22 de dezembro de 2017) entrou com message submission agent — o Dovecot também fala 587 — e autenticação em Lua. Push notification, eventos, o recorte de “não é só imapd”.
No meio disso, março de 2015: a Dovecot Oy fundiu com a Open-Xchange AG. Timo, Mikko Linnamäki e Markku Kenttä viraram sócio da OX. Timo na lista: nada de matar o nome, nada de forçar o App Suite para baixo do IMAP. “Finalmente posso voltar a desenhar coisa nova.” A OX ganhava o backend que 57% dos IMAP ativos já rodavam (número da época). O CE continuou saindo. O Pro, para telco.
O que o pombal faz melhor que o Courier
Não é GUI. É o armário:
- Formatos: mbox, Maildir, sdbox (um mail por arquivo), mdbox (vários). imapc/pop3c se a caixa mora em outro servidor.
- Índice: flag, cache, thread. Maildir sincroniza; dbox assume que o índice é a verdade.
- Auth: passwd, PAM, LDAP, SQL, Lua, GSSAPI, autenticador SASL que o Postfix 2.3+ e o Exim 4.64+ consultam direto — um único lugar de senha para SMTP-auth e IMAP.
- ACL, shared, quota, zlib, FTS (hoje o driver flatcurve). Hibernação de IDLE num processo
imap-hibernate. - Pigeonhole: Sieve na entrega (LDA/LMTP) e ManageSieve na 4190.
Em 2017 a Mozilla, via MOSS, pagou a Cure53 para auditar o código. O relatório é o tipo de coisa que admin cola no slide: apesar de tentar, os testers acharam três problemas menores. “Exceptionally good outcome.” Segurança não era marketing — era o critério de 2002.
2.4: a config que quebra de propósito
A 2.4.0 saiu em 24 de janeiro de 2025, depois de uma espera longa. Aki Tuomi, da Open-Xchange Oy, avisou na lista: pacote 2.4 não lê config 2.3. Reescreve. dovecot_config_version tem de ser a primeira linha que não é comentário; dovecot_storage_version também entra. Sem isso o processo recusa subir — de propósito, para não mudar default em silêncio. A seção plugin {} morreu. Todo passdb/userdb ganhou nome. Berkeley DB saiu. Memcached dict saiu (Redis no lugar). Variável nova, filtro nomeado, SSL obrigatório inclusive em login_trusted_networks quando ssl=required.
A chave de pacote também virou: 2.4 assina com EF0882079FD4ED32BF8B23B2A1B09EF84EDC5219. A 2.3 ficou na chave antiga. Em 12 de maio de 2025 o lifecycle: tudo antes da 2.3, EOL total; 2.3 só correção crítica de segurança; feature e bug no 2.4. Distro que empacota 2.3 que se vire com o vendor.
O Pro foi para a arquitetura Palomar (3.x desde setembro de 2024). O CE não ficou proprietário — a OX repetiu isso em dezembro de 2025. Feature de cluster grande mora no Pro; o pombal aberto continua o melhor IMAP de máquina única e de ISP médio.
2026: 2.4.5, Sieve, ML-KEM
A 2.4.5 e o Pigeonhole 2.4.5 saíram juntos em 28 de agosto de 2026. Release de segurança, não de brinquedo:
- use-after-free no Sieve
editheader— o tipo de bug que vira RCE na entrega. - SMTP smuggling no recorte de submissão.
- CVE-2026-40204: criar mailbox furava ACL.
- OTP (SASL e password scheme) removido.
- Heredoc na config (
<<MARKER). doveadm auth cache status.- FTS flatcurve com busca por frase.
- ML-KEM-512/768/1024 via OpenSSL 3 — KEM pós-quântico no TLS do IMAP.
- AEAD na criptografia de chave do Dovecot.
O Ubuntu 24.04 ainda empacota 2.3.x da distro. Quem quer 2.4 vai em repo.dovecot.org ou compila. Docker oficial: dovecot/dovecot. A combinação clássica deste blog continua a mesma de 2010: Postfix na 25/587, Dovecot na 143/993, LMTP no socket, SASL compartilhado. Zimbra, por baixo, também fala com um Dovecot — o recorte antigo está em Instalação do Zimbra 8.7.1 no Ubuntu.
O que ficou
Um pombal finlandês, um IRC client, cinco anos até a 1.0 e a teimosia de não confiar em IMAP que já tinha vazado. Courier e UW saíram de cena. Cyrus ficou no nicho acadêmico. O Dovecot ficou com três quartos dos IMAP do planeta e com o Postfix do outro lado da fila. 2.4.5, MIT/LGPLv2, Pigeonhole no Sieve, CE aberto, Pro na Palomar. Timo desenhou o armário. Aki e a OX ainda o entregam.
O MTA irmão: A história do Postfix. O Unix embaixo: UNIX — A Origem dos Sistemas e Linux faz 35 anos.
Das caixas na parede de Tampere à 2.4.5: o pombal ainda devolve a carta. Teal, índice em disco, IDLE hibernado. O pombo entra. O IMAP responde.