
Em 14 de março de 1999 Ethan Galstad soltou o NetSaint 0.0.1. Ele achava que umas doze pessoas iam ligar. O bicho pingava host, rodava plugin, mandava e-mail e pager quando o serviço caía — e de novo quando voltava. Em 2002 o nome virou Nagios: “Nagios Ain’t Gonna Insist On Sainthood”, hagios = santo, porque NetSaint bateu em marca. Vinte e sete anos depois o Nagios Core 4.5.14 (5 de agosto de 2026) ainda é GPLv2, ainda é C, ainda é o jeito que uma geração inteira de admin Linux aprendeu a vigiar máquina. O N manuscrito na capa é o mesmo desenho torto de sempre.
1996: um ping no DOS e um pager
Galstad, nos EUA, escreveu um programinha MS-DOS para pingar servidor Novell NetWare e disparar pager numérico. A checagem e o aviso já vinham de ferramenta de terceiro — a semente do modelo plugin. Em 1998 ele pensou em monitoramento hospedado, reescreveu para Linux. Em março de 1999 abriu o código. Os plugins saíram do tarball logo depois e viraram projeto à parte: hoje ainda é o nagios-plugins / Monitoring Plugins. Sem esse recorte — um binário burro que só agenda, e um exército de check_* — o Nagios não teria virado padrão.
2002: o santo que não insistiu
Marca parecida, advogado, acordo. Galstad mudou o nome mesmo assim. Nagios pronunciado “ná-gui-ous”. A arquitetura ficou: daemon em C, arquivo de texto como verdade (nagios.cfg, hosts.cfg, services.cfg), CGI em Perl/C no Apache, estado OK / WARNING / CRITICAL / UNKNOWN, hard/soft state, flap detection, notification por contato. NRPE para checar o Linux de dentro. NSCA para o check passivo (o host é que empurra). Quem já configurou 400 host na unha lembra o ponto: o Nagios não desenha gráfico. O Nagios grita.
Em junho de 2005 foi Project of the Month no SourceForge. Em 2006 o eWeek botou na lista de ferramenta “must have” de empresa. Ainda não havia empresa. Havia o Ethan e a lista.
2.0, 3.0, 4.0: NEB, escala, Core
Nagios 2.0 (fevereiro de 2006): interface nova e o Event Broker (NEB) — API para módulo enxergar a estrutura interna. Daí saiu NDOUtils (estado no MySQL), daí o que o XI e o Centreon comeram. Nagios 3.0 (março de 2008): monitoramento adaptativo e fôlego para instalação grande. Nagios 4 (2014) reescreveu o scheduler: menos CPU para a mesma quantidade de check.
Por volta de 2007 Galstad fundou a Nagios Enterprises. O Core ficou GPLv2. O produto pago — Nagios XI, depois Log Server, Network Analyzer, Fusion — empilha interface, wizard, relatório e suporte em cima do mesmo motor. Open core antes da moda ter nome. Em 2024 a empresa fez 25 anos. XI, Log Server, Analyzer e Fusion já vão na linha 2026R1. A World Conference 2026 é em St. Paul, Minnesota, 14–17 de setembro, na sede.
A cisão: Icinga, Naemon, Checkmk
Em 2009 parte da comunidade — cansada do ritmo e da linha entre o que era livre e o que ia para o XI — forkou. Nasceu o Icinga. Depois o Naemon (2014), fork do Core 4. O Check_MK de Mathias Kettner (hoje Checkmk) começou como conjunto de plugin e virou produto. Centreon, Shinken, Opsview. O plugin API era tão simples que o ecossistema inteiro cabe num check_disk -w 20% -c 10%. O preço: config em arquivo que não escala sem ferramenta. É aí que entra o NagiosQL.
O que o Nagios ensinou
- Host e service são objetos. Dependência (pai) evita tempestade de alerta quando o switch cai.
- Check é processo externo. Qualquer linguagem. Timeout. Código de saída 0/1/2/3.
- Notificação tem janela, escalação, downtime, acknowledgement.
- O mapa de status CGI — os quadradinhos verdes e vermelhos — é a estética de uma era. Grafana não existia.
O Zabbix tomou o outro caminho: item no banco, agente que coleta, trigger que avalia, gráfico nativo. O Prometheus, neste blog, é a terceira via: pull, métrica, Node Exporter.
2026: Core 4.5.14, XI 2026R1
O Core 4.5.14 saiu em 5 de agosto de 2026. GitHub NagiosEnterprises/nagioscore. NRPE 4.x ainda é o jeito clássico de falar com o Linux. Distro empacota 4.4/4.5. O XI 2026R1.4 ganhou wizard de Nutanix e de switch. Não é o motor da nuvem — o Zabbix e o Prometheus comeram esse pedaço — mas em NOC de empresa que já tem mil .cfg, o N não sai.
O que ficou
Um ping no DOS, um santo que perdeu a marca e um daemon que só agenda plugin. A geração seguinte forkou. A empresa fez o XI. O Core, GPLv2, ainda responde nagios -v /etc/nagios/nagios.cfg. 4.5.14, St. Paul, pager no começo, webhook no fim. O N sublinhado continua torto de propósito.