
Em 2003 um hipervisor saiu do Computer Laboratory de Cambridge e mudou o jeito de fatiar um servidor. Xen — tipo 1, GPLv2, paravirtualização — virou o chão do Amazon EC2, do Rackspace e, depois, do Qubes OS. Em 2026 o Xen Project 4.21 ainda é o núcleo do XenServer, do XCP-ng e de uma fatia do ARM embarcado. A história é a de um paper da SOSP que virou nuvem.
XenoServers, 1999
Ian Pratt, lecturer no Computer Laboratory, liderou o projeto XenoServers: “computação pública de área ampla” — qualquer um rodando qualquer código em qualquer máquina, com cobrança por recurso. O nome vem do grego xenos, hóspede. Anil Madhavapeddy, então doutorando, conta o mito de origem: uma aposta de fim de semana se Keir Fraser conseguiria bootar vários kernels Linux no mesmo hardware. Conseguiu. O relatório técnico UCAM-CL-TR-553 (janeiro de 2003) descreve o desenho: vários sistemas convidados, isolamento, QoS, overhead de poucos por cento.
Em 2–3 de outubro de 2003 saiu o primeiro release estável, com Linux 2.4.22 como convidado. A SOSP’03 publicou Xen and the Art of Virtualization (Barham, Dragovic, Fraser, Hand, Harris, Ho, Kotsovinos, Madhavapeddy, Neugebauer, Pratt, Warfield). Microsoft Research chegou a portar Windows XP para Xen sob licença acadêmica — o código não podia ser publicado, mas o paper cita a experiência.
Paravirtualização, dom0 e o cloud
Xen não finge um PC inteiro. O convidado sabe que está virtualizado e fala com o hipervisor por hypercall. Isso é paravirtualização (PV): rápido, mas exige patch no kernel. O domínio privilegiado, dom0, segura os drivers e acorda os outros (domU). Quando a Intel soltou VT-x (final de 2005), o Xen 3.0 foi o primeiro hipervisor com suporte — HVM para Windows sem patch. Mais tarde veio o PVH, o meio-termo.
Amazon EC2 entrou em produção em 2006 em cima de Xen. Ficou assim até novembro de 2017, quando a AWS migrou para Nitro (KVM). Rackspace, Linode, SoftLayer: a primeira geração de nuvem pública foi Xen. Em 2014 um bug no emulador x2APIC forçou reboot em massa na EC2 — o preço de ser o hipervisor da internet.
XenSource e a Citrix
Em 2005 Pratt, Fraser, Hand e o CEO Nick Gault fundaram a XenSource para empacotar o hipervisor como produto. O resultado comercial é o que viraria XenServer. Em 22 de outubro de 2007 a Citrix comprou a XenSource por US$ 500 milhões. O código do hipervisor continuou GPLv2; o produto ganhou console, pool, HA e o toolstack XAPI.
Linux Foundation, 2013
Em 15 de abril de 2013, nos dez anos do primeiro release, o Xen Project foi para a Linux Foundation como Collaborative Project. Membros na época: Amazon, AMD, Cisco, Citrix, Google, Intel, Oracle, Samsung, Verizon. A marca “Xen Project” separa o hipervisor livre do “Xen” que a Citrix usava em XenApp e XenDesktop. O site passou a xenproject.org. Licença: GPLv2. Governança: meritocracia.
O que o Xen é hoje
O 4.21 saiu em 19 de novembro de 2025. Arquiteturas: x86, ARM, RISC-V, PowerPC. Qubes OS usa Xen para isolar cada aplicativo num domínio. O XAPI — toolstack enterprise — alimenta Citrix/XenServer, XCP-ng e Magrana. Drivers PV de Windows o próprio projeto mantém.
No Linux o KVM ganhou o kernel e o desktop. Xen ficou no tipo 1 de verdade: pequeno, auditável, o chão de quem precisa de isolamento forte. A linhagem Cambridge → XenSource → Citrix → Foundation está em A história do XenServer e A história do XCP. O cubo do desktop, outro ramo, é o VirtualBox. O kernel em volta: Linux faz 35 anos.
De uma aposta de fim de semana em Cambridge ao 4.21: o Xen ainda é o hipervisor que cabe entre o metal e o sistema — e recusa ser só mais um módulo do kernel.