A história de Steve Wozniak: o circuito do Homebrew

Steve Wozniak de pé no Homebrew Computer Club diante da placa do Apple I e da maçã arco-íris

Stephen Gary Wozniak nasceu em San Jose em 11 de agosto de 1950. O Apple I ele desenhou sozinho, de graça, para impressionar os amigos do Homebrew Computer Club. Jobs viu o negócio. Quase cinquenta anos depois, na festa de 50 anos da Apple, o Woz ainda recebe o holofote — e, diz ele, um cheque semanal de uns US$ 50, funcionário número 1, o único que nunca saiu da folha. A capa é o auditório do SLAC em 1975: cadeira de metal, urna de café, a placa nua na mesa.

HP, Blue Box, o clube

Pai engenheiro na Lockheed. Homestead High — a mesma do Jobs, que conheceu por um amigo comum por volta de 1971. Berkeley, depois HP em Cupertino, calculadoras. O Woz queria um computador de verdade na mesa, não um kit de LED. Em 1971–72 ele e Jobs montaram a Blue Box, o aparelho que imitava o tom da operadora. Woz o circuito; Jobs a venda. John Draper (Cap’n Crunch) no meio.

A primeira reunião do Homebrew Computer Club foi em 5 de março de 1975, na garagem de Gordon French em Menlo Park; depois o clube foi para o auditório do SLAC. O Altair 8800 era o brinquedo da vez — Intel 8080, front panel, sem vídeo. O Woz olhou e desenhou outra coisa: MOS 6502 (barato), vídeo em TV, teclado, um computador que se via. Levou a placa. O clube aplaudiu. Jobs, que não era do clube do ferro, aplaudiu o outro aplauso.

Apple I, Apple II, os slots

Paul Terrell, Byte Shop, pediu 50 placas montadas. Jobs financiou com o fusca e a HP-65 do Woz. Umas 200 unidades do Apple I, US$ 666,66, sem fonte, sem caixa, sem teclado. A Apple Computer Company, 1º de abril de 1976, com Ronald Wayne. A história do sócio de palco está em A história de Steve Jobs.

O Apple II, 1977, é o que importa para quem solda. Cor no vídeo (o truque do Woz com o clock), Integer BASIC em ROM escrito por ele, oito slots de expansão — a decisão de abrir a máquina. Disquete, VisiCalc, o primeiro PC que uma empresa comprava sem ser IBM. Quase 6 milhões de Apple II até 1993. O Macintosh, depois, tratou o II como parente pobre; o Woz nunca perdoou del todo, e mesmo assim usou Mac o resto da vida.

A HP teve o direito de recusar o Apple I — o Woz era empregado. Recusou. Ele pediu demissão para a Apple, mas por anos ainda se apresentou como o engenheiro que gostava de HP. Employee #1. Jobs era #2. A numeração é teologia de pátio; o circuito é o que resta.

O Cessna, o US Festival, Rocky Raccoon

Em 7 de fevereiro de 1981 o Woz decolou um Beechcraft de Santa Cruz e caiu. Amnésia anterógrada: semanas sem gravar memória nova. A Apple já era outra empresa. Ele voltou, brigou com a burocracia, e em 1985 saiu do dia a dia — sem largar a folha. Financiou o US Festival (1982 e 1983), rock e tecnologia no deserto, e perdeu uma fortuna. Voltou a Berkeley e se formou em 1986 em EECS sob o nome Rocky Raccoon Clark, para não virar circo.

CL-9, 1987: o primeiro controle remoto universal. Wheels of Zeus (W.O.Z.), GPS — o avô tosco do AirTag, duas décadas cedo. Fusion-io, chief scientist, até a SanDisk comprar em 2014. Primary Data, fechou em 2018. Efforce (2020), blockchain para eficiência energética. Privateer Space (2021), lixo orbital; em 2026 a empresa comprou a Orbital Insight. Silicon Valley Comic Con com Stan Lee, 2015. Woz U, 2017, escola de tecnologia. Autobiografia iWoz, 2006.

2026: o cheque de cinquenta dólares

Em agosto de 2026 o Woz fez 76 anos. Mora em Los Gatos. Continua na folha da Apple como fellow de digital design — posição cerimonial, o cheque que ele conta como US$ 50 por semana (outras contas falam num stipend maior; o recado é o mesmo: não se aposentou). Net worth na casa dos US$ 100–140 milhões: vendeu a maior parte das ações quando saiu, e os 7% do IPO de 1980 hoje seriam dezenas de bilhões. Ele diz que não se importa. EFF, educação, palco. Em 2025–2026 fala mal de boa parte da IA (“decepcionado”) e bem da inteligência de verdade, a dos formandos.

A Apple fez 50 anos em 1º de abril de 2026. O contrato original com Jobs e Wayne foi a leilão. Uma placa de Apple I assinada, a US$ 800 mil. O menino que queria só mostrar o circuito no clube virou relíquia. O outro Steve, o da gola alta, morreu em 2011. O engenheiro segue palco a palco, camiseta, anedota, a mesma voz.

O que ficou

O Woz é o argumento de que o computador pessoal nasceu de um hobbyista que queria TV e teclado, não de um plano de negócio. Slots. BASIC na ROM. 6502. O Homebrew como universidade. Jobs embalou; sem o circuito não havia o que embalar. Sem Jobs, o circuito talvez ficasse no clube — e isso o Woz, em certos dias, ainda acha que teria sido melhor.

A capa é o auditório: fluorescente, mural de esquema, a placa na mesa de toalha, a maçã de seis cores na parede. Não é Cupertino. É Menlo Park, 1975, a noite em que um engenheiro da HP levou um computador de verdade para os amigos.