Brasileiro aprovado em Stanford aprendeu a programar aos 11 anos

Ilustração sobre transparência de gastos públicos: papéis de arquivo virando um painel de dados abertos

Nota (2026): Notícia de abril de 2017, mantida como registro. Duas mudanças nesta revisão: trocamos a foto pessoal original por uma ilustração — ele não é figura pública e a imagem não tinha crédito — e acrescentamos, no fim, o que aconteceu com a causa que ele defendia. Sobre onde ele está hoje, veja a ressalva no fim do post.

Um programador com interesse em política e transparência de gastos. É assim que Daniel Ferreira, de apenas 18 anos, define seus gostos, que renderam a ele até um apelido: “dev [desenvolvedor] de humanas”, como é conhecido pelos amigos.

Aprovado na universidade de Stanford, nos Estados Unidos, considerada uma das melhores do mundo, Daniel desenvolveu, aos 15 anos, um site que permite acessar, pesquisar e comparar gastos públicos do Governo Federal.

Ele estudou em um colégio particular de Valinhos, no interior de São Paulo, e participou do programa Prep Scholars, da Fundação Estudar, que auxilia alunos com bom desempenho acadêmico a se inscreverem em universidades no exterior.

Autodidata, o jovem começou a programar quando tinha 11 anos. Mexendo em um smartphone que havia ganhado do pai, ele descobriu que podia fazer modificações no sistema do aparelho – como trocar as cores dos ícones e adicionar álbuns de música à tela principal.

“Não era nenhum interesse específico, era um interesse por desafio”, explica Daniel. Não demorou muito para que o jovem passasse a frequentar fóruns de programação na internet, onde foi aprendendo a fazer apps para smartphones. Um deles, que permitia que seus colegas de escola tivessem fácil acesso a suas notas, rendeu a ele uma “ameaça de processo”.

“A escola não entendeu do que se tratava. Me forçaram a tirar o aplicativo do ar. Foi um negócio meio triste, fiquei bem frustrado”, conta. “Foi aí que dei uma parada em programação. Comecei a seguir muito de perto as eleições de 2014, a ir em grupos de debate da escola e em grupos de simulação da ONU [Organização das Nações Unidas]”, explica o jovem.

“Uma coisa que me irritava muito era que as pessoas diziam que o governo gastava além da conta, mas nunca sabiam dizer exatamente quanto gastava ou com o que gastava”, afirma. Foi a partir daí que Daniel teve a ideia de desenvolver seu primeiro site, já que, segundo ele, os dados de despesas orçamentárias do governo disponibilizados pelo Ministério do Planejamento eram “codificados”. “Ninguém conseguia entender aquele formato”, diz. “Todos deveriam ter a oportunidade de programar”

As experiências de Daniel com a programação integrada à área de humanas renderam bons frutos: mesmo antes de concluir o ensino médio, o jovem passou a participar de um grupo de pesquisa da USP (Universidade de São Paulo) sobre gastos públicos. Ele também foi contratado por uma startup de pagamentos online para desenvolver a integração de máquinas de cartão de crédito no sistema da empresa.

“Eu sempre programei porque gostava, não porque queria fazer alguma coisa específica. Todo mundo deveria ter a oportunidade de aprender a programar”, defende Daniel. No entanto, ele ressalta: “ninguém deveria ser forçado a aprender programação. Tenho medo de que isso vire algo como são hoje as aulas de Física, por exemplo –muita gente não se interessa pela matéria e depois vai simplesmente esquecer”.

Stanford e o futuro

Apesar de ainda não saber exatamente qual área vai seguir no futuro, Daniel diz ter decidido fazer “algo relacionado a ciência da computação e algo relacionado a sociologia e história” nos seus primeiros anos de estudo em Stanford, quando tem uma flexibilidade maior no currículo.

De uma coisa, no entanto, o jovem tem certeza: ele vai seguir defendendo a bandeira da transparência dos dados públicos. “Se abrir alguma janela de tempo, provavelmente vou investir no site dos dados de transparência para analisar doações de campanha, por exemplo. Existem hoje dados abertos sobre isso, mas não muita análise, e é uma coisa de que gosto muito”, conta.

Links

  • https://educacao.uol.com.br/noticias/2014/08/15/seis-universidades-brasileiras-ficam-entre-melhores-do-mundo-segundo-arwu-ranking-de-xangai.htm
  • http://www.cbsi.net.br/2017/04/brasileiro-aprovado-em-stanford-aprendeu-a-programar-aos-11-anos.html

Nove anos depois

O site saiu do ar

The gastospublicos.com.br, o projeto que ele criou aos 15 anos e que deu origem a esta reportagem, não existe mais — o domínio nem resolve em DNS. É o destino comum de projeto pessoal feito por estudante: a faculdade começa, o tempo acaba, o domínio vence.

Isso não diminui o feito. Diminuiria se a ideia tivesse morrido junto — e não foi o que aconteceu.

Sobre onde ele está hoje: uma ressalva honesta

Procuramos. E decidimos não publicar.

Daniel teve um ciclo de notícia aos 18 anos e nunca foi figura pública; nove anos depois, é uma pessoa comum com direito à própria privacidade. O nome é comum o bastante para que qualquer perfil encontrado numa busca possa ser de outra pessoa — e atribuir a carreira errada a alguém é um dano real, não um detalhe editorial. Se um dia ele quiser contar o que fez desde então, o espaço aqui está aberto.

O que dá para acompanhar sem invadir nada é o que ele dizia querer defender. E aí, sim, houve história.

A transparência que ele queria, hoje

O problema que motivou o projeto — “os dados de despesa do governo eram codificados, ninguém entendia aquele formato” — foi resolvido em boa parte, e por caminhos que em 2017 mal existiam:

  • O Portal da Transparência ganhou API. Não é mais só uma tela para consultar: há endpoints de dados abertos com filtros, e download em planilha das consultas. Dá para automatizar a coleta que ele fazia raspando página.
  • The dados.gov.br virou o catálogo central de conjuntos de dados abertos do governo federal, com formato padronizado.
  • Querido Diário, lançado em 2021 pela Open Knowledge Brasil, ataca o nível mais opaco de todos: os diários oficiais dos municípios. Ele coleta, unifica e torna pesquisável o que antes era PDF escaneado em site de prefeitura.
  • Operação Serenata de Amor — a “Rosie”, robô que audita reembolsos de cota parlamentar e denuncia suspeitas — virou o projeto de inovação cívica mais conhecido do país. Hoje é mantida pela Open Knowledge Brasil, com atualizações mais espaçadas, mas com o legado inteiro em código aberto.

Nenhuma dessas iniciativas é dele. Mas todas provam que a aposta estava certa: o gargalo da transparência nunca foi a falta de lei, foi a falta de gente transformando dado bruto em coisa consultável. Em 2017 isso era hobby de adolescente; em 2026 é uma área com organizações, financiamento e ferramenta madura.

E o caminho do autodidata mudou

Vale registrar o quanto ficou mais fácil desde a época em que ele “frequentava fóruns de programação” para aprender:

  • Os dados que ele precisou raspar hoje saem por API.
  • Fórum de dúvida virou assistente de IA no terminal, que responde na hora, sem ironia e sem “já perguntaram isso”.
  • A infraestrutura para publicar um site como o dele custa hoje o preço de um lanche por mês — ou nada, num plano gratuito.

O que não mudou é a parte difícil: ter uma pergunta que valha a pena responder. Ferramenta ficou barata; curiosidade continua sendo a matéria-prima escassa.

Sobre a frase que ele deixou

A observação mais interessante da entrevista envelheceu muito bem, e vale reler: “Todo mundo deveria ter a oportunidade de aprender a programar — mas ninguém deveria ser forçado. Tenho medo de que isso vire algo como são hoje as aulas de Física, que muita gente não se interessa e depois esquece.”

Dito por um garoto de 18 anos em 2017, no auge do discurso de que “todo mundo tem que aprender a programar”. Nove anos depois, com escolas incluindo programação no currículo obrigatório e assistentes de IA escrevendo boa parte do código repetitivo, a distinção que ele fez entre oportunidade and obrigação ficou mais pertinente, não menos.

To continue: as principais linguagens de programação é o mapa de por onde começar, e os cargos de TI em alta mostra onde esse aprendizado desemboca.