Cargos de TI em alta e em baixa no Brasil

Mascote do LinuxPro apontando a área em alta no gráfico de cargos de TI, com as setas de alta e baixa

Nota (2026): Texto original de 2017, com dados do relatório HAYS daquele ano. Fica como registro — e o interessante é que a lista de “cargos em alta” de então acertou quase tudo. A seção O mercado em 2026, no fim, traz a lista atual, com faixas salariais, o que virou obsoleto e o efeito da IA sobre cada função.

Não dá para dizer que o mercado de trabalho em tecnologia da informação está indo bem em 2017, mas é inegável que o setor foi um dos que menos sofreram com a crise. Isso porque, em tempos difíceis, a área é vista pelas empresas como aliada da produtividade e da rentabilidade — tanto para enxugar custos quanto para ampliar oportunidades de negócios.

Um relatório recente da consultoria HAYS mostra que, em 2016, companhias de todos os setores apostaram na customização de sistemas de gestão e projetos de business intelligence (BI). “Nenhuma companhia deixou de investir em tecnologia por causa da conjuntura do país, muito pelo contrário”, diz Raphael Falcão, diretor da HAYS Experts.

O estudo faz um prognóstico relativamente positivo para a área em 2017: os profissionais de TI continuarão sendo vistos como aliados estratégicos para alavancar o desempenho das empresas, sobretudo em algumas áreas específicas. O destaque vai sobretudo para especialistas em big data, nuvem, arquitetura de segurança adaptável, inteligência artificial e machine learning.

Outro movimento esperado, segundo Falcão, é a renovação dos quadros em grandes empresas de tecnologia. “Vemos empregadores com perfil bastante tradicional buscando pessoas com competências frescas e ‘disruptivas’ para tentar se renovar e até testar outros modelos de negócio”, explica. Paralelamente, as startups se consolidam como empregadoras competitivas no mercado de TI, e o empreendedorismo se firma como outra importante alternativa de carreira.

Para 2018, a previsão do diretor da HAYS Experts é que a empregabilidade do profissional de tecnologia da informação se mantenha numa curva de ascensão. “Embora ainda exista incerteza política, o novo direcionamento econômico agrada ao mercado e cria um ambiente mais confortável para investimentos”, afirma ele.

O relatório da HAYS aponta ainda os cargos em alta e em baixa no Brasil para 2017. Confira a seguir:

Cargos em alta:

Especialista em cloud e DevOps
Analista | gerente de segurança da informação
Analista | engenheiro | cientista de dados

De olho na redução de custos, empresas de todos os setores têm buscado migrar seus dados de estruturas físicas (hardware) para a nuvem, o que explica a alta na procura por especialistas em cloud, capazes de planejar, orientar e executar esse processo com segurança.

Já os especialistas em DevOps são procurados por empresas que buscam imprimir uma cultura de inovação e eficiência aos seus departamentos de TI, consolidando sua mudança de uma área de suporte para um núcleo estratégico para o negócio.

Segundo Falcão, o analista ou gerente de segurança da informação ganha ainda mais projeção graças ao movimento de migração de dados para a nuvem, o que reforça a preocupação com o sigilo dos dados.

O analista, engenheiro ou cientista de dados, por sua vez, será mais procurado graças à corrida pelos benefícios do big data. “Muitas empresas ainda não sabem como usar o poder dos dados no dia a dia, mas estão tentando sair na frente e planejam contratar especialistas em big data como um investimento estratégico”, diz o diretor da HAYS Experts.

Cargos em baixa:

Analista de rede de telefonia
Coordenador | analista de infraestrutura não-virtualizada

As áreas de TI menos promissoras para 2017, de forma geral, são aquelas em processo de superação pela chegada de novas tecnologias. É o caso do analista de rede de telefonias, num momento em que a chegada da internet e dos smartphones obriga um grande número de empresas a descontinuar suas redes fixas. “Quem trabalha com hardware mais antigo de telefonia terá cada vez mais dificuldades de encontrar oportunidades”, diz Falcão.

A mesma lógica vale para coordenadores e analistas de infraestrutura não-virtualizada. Por gerar altos custos, a infraestrutura física necessária para armazenar informação, como a de CPDs (Centro de Processamento de Dados), tem sido substituída por dados em nuvem.

Links

  • http://www.cbsi.net.br/2017/08/estes-sao-os-cargos-de-ti-em-alta-e-em-baixa-no-brasil.html
  • https://becode.com.br/cargos-e-salarios-para-iniciantes-ti/
  • Guia Primeiro Trabalho em TI
  • http://exame.abril.com.br/carreira/estes-sao-os-cargos-de-ti-em-alta-e-em-baixa-no-brasil/
  • https://www.hays.com.br

O mercado em 2026

Nove anos depois, vale primeiro dar o crédito: a lista de 2017 acertou. Cloud, DevOps, segurança da informação e dados eram as apostas — e as quatro viraram o centro do mercado. Quem seguiu aquele conselho não se arrependeu.

O que mudou foi o nível de especialização exigido dentro de cada uma dessas áreas, e o surgimento de funções que não existiam. Este é o quadro atual.

Em alta

Engenheiro de IA / Machine Learning. A função que não estava na lista de 2017 e hoje lidera a remuneração — mas com faixas mais pé no chão do que se costuma repetir por aí. O Guia Salarial 2026 da Robert Half projeta de R$ 19,5 mil a R$ 27,1 mil para o cargo em São Paulo; já a maior pesquisa salarial pública do país, a do Código Fonte TV, com 17 mil respondentes, aponta média de R$ 14,6 mil para o sênior e R$ 20,6 mil para especialista e tech lead. Os “R$ 40 mil” que circulam existem, mas ficam acima do percentil 90 até em bases formadas por gente de big tech e fintech. Atenção ao recorte: o mercado pede quem coloca modelo em produção — inferência, custo, latência, avaliação —, não quem só treina modelo em notebook Jupyter.

Cibersegurança. Deixou de ser um cargo e virou uma família inteira: AppSec, resposta a incidente, cloud security, GRC. A LGPD e a escalada de ransomware fizeram o resto. Os números reais são mais modestos do que a fama: a média nacional do analista de segurança da informação é de R$ 9 mil, com mediana de R$ 7,5 mil (CAGED, sobre 8,7 mil profissionais registrados). Pela Robert Half 2026, o sênior fica entre R$ 11,3 mil e R$ 19 mil, a coordenação entre R$ 18 mil e R$ 24,6 mil, e só na gerência a faixa passa dos R$ 22 mil.

Engenheiro de dados. Aqui houve uma inversão silenciosa em relação a 2017 — leitura de mercado, não estatística fechada: naquela época o cargo da moda era cientista de dados; hoje quem falta é o engenheiro. As empresas descobriram que não adianta ter quem modele se ninguém constrói e mantém o caminho por onde o dado passa.

Arquiteto de nuvem e FinOps. Continua na crista, com uma mudança de foco importante: em 2017 se contratava para migrar para a nuvem; em 2026 se contrata para reduzir a fatura dela. Quem sabe olhar custo de cloud tem mercado garantido.

SRE e engenharia de plataforma. A evolução natural do “especialista em DevOps” de 2017. A diferença é que hoje se espera que a pessoa construa a plataforma interna que os times de produto consomem — Kubernetes, observabilidade, pipeline e orçamento de erro.

Em baixa

Suporte N1 puro. É o cargo mais pressionado do setor: a média do help desk no Brasil é de R$ 2.489, com mediana de R$ 2.215 e teto em torno de R$ 3.900 (CAGED, sobre 67 mil profissionais) — e a triagem de chamado repetitivo é exatamente o que assistente de IA faz bem. Vale a ressalva de que a substituição é tendência anunciada, não medição consolidada: o próprio Gartner projeta que metade das empresas que cortaram atendimento alegando IA vão recontratar até 2027. Continua sendo uma porta de entrada válida — mas hoje é porta de passagem, não destino.

QA exclusivamente manual. Aqui a leitura é de tendência, não de estatística: não há levantamento brasileiro mostrando retração de vagas de QA — a área até aparece entre as de maior demanda. O que os dados mostram é a diferença de remuneração entre quem só testa clicando e quem escreve automação e trabalha dentro do pipeline. É para esse lado que compensa caminhar.

Infraestrutura sem código. A previsão de 2017 sobre “infraestrutura não virtualizada” se cumpriu e foi além: hoje não basta virtualizar, tem que ser declarado em código. Administrador que só clica em console — de VMware ou de nuvem — está no mesmo lugar em que estava o analista de rede de telefonia em 2017.

Desenvolvedor júnior sem portfólio. O ponto mais delicado desta lista. Não é que o mercado não queira júnior — é que a tarefa simples que servia de escada agora sai pronta de um assistente. Quem está começando precisa mostrar coisa feita, não só curso concluído.

O que a IA fez com cada função

Vale separar o discurso do que se observa na prática:

  • Não substituiu ninguém que entende do assunto. Substituiu tarefa: boilerplate, primeira versão de script, tradução de código entre linguagens, leitura de log.
  • Aumentou o valor de quem revisa — esta é leitura nossa, não medição. Gerar código virou commodity; saber que aquele código está errado, não.
  • Criou pressão sobre a entrada e alívio no meio. O sênior ficou mais produtivo; o júnior perdeu parte do trabalho que o formava. Os estudos que quantificam esse efeito são majoritariamente do mercado americano e não estabelecem causalidade — mas o padrão bate com o que se observa nas vagas por aqui. É um problema ainda sem solução boa.
  • “Engenheiro de prompt” não virou carreira. A habilidade foi absorvida por todos os cargos, como aconteceu com “webmaster” nos anos 2000.

O que fazer com essa lista

Três conselhos que valem mais que qualquer ranking:

  1. Escolha a base antes do cargo da moda. Linux, redes, um pouco de programação e capacidade de depurar servem para todas as funções em alta desta lista — e continuarão servindo para as da próxima. Comece pelos comandos do terminal e pelas linguagens de programação.
  2. Compare direito a proposta CLT com a PJ. A pejotização deixou de ser exceção: pela Brasscom, entre setembro de 2024 e dezembro de 2025 o setor ganhou 125 mil profissionais, mas só cerca de 19% entraram em CLT. E aqui vai o dado que contraria a intuição — quando se normaliza o pacote CLT (13º, férias, FGTS, benefícios), a mediana do PJ brasileiro fica abaixo da do CLT no nível sênior. O bruto engana de verdade; refaça a conta antes de decidir.
  3. Inglês. É o que separa a faixa nacional da internacional, e a diferença é de múltiplos, não de percentuais: nos levantamentos que separam o regime de contratação, a mediana de quem é contratado direto por empresa estrangeira fica mais que o dobro da de quem está em CLT no Brasil. O contexto está em a falta de profissionais de TI no Brasil.

As faixas salariais citadas vêm do Guia Salarial 2026 da Robert Half, da Pesquisa Salarial 2026 do Código Fonte TV e da base do CAGED, consultadas em setembro de 2026. São valores mensais para contratação CLT e variam bastante por região, porte da empresa e regime — em contrato com empresa estrangeira a conta é outra. Use como ordem de grandeza, não como tabela.