Novo Sistema de Arquivos da Apple

Mascote do LinuxPro apontando o diagrama do sistema de arquivos com volumes compartilhando o mesmo contêiner

Nota (2026): Texto original de abril de 2017, quando o APFS tinha acabado de chegar no iOS 10.3 e ainda não era o disco de boot do Mac. Nove anos depois é o sistema de arquivos de todo dispositivo Apple — iPhone, iPad, Watch, Apple TV, Mac (Tahoe 26). HFS+ sobrou para instalador bootável; o macOS 28 deixa de aceitar HFS+ criptografado.

A Apple anunciou o APFS (Apple File System) na WWDC 2016. Em março de 2017 o iOS 10.3 converteu o flash do iPhone sem o usuário perceber. Em setembro do mesmo ano o High Sierra fez o mesmo no SSD do Mac. O HFS+, de 1998 (e o HFS de 1985), nasceu na era do disquete. O APFS nasceu para NAND, clones e criptografia.

O que o HFS+ não aguentava mais

O próprio documento da Apple dizia: HFS e HFS+ foram desenhados quando arquivo se media em kilobytes e o disco era um prato girando. Hoje o iPhone guarda centenas de GB em flash de baixa latência, o Mac clona VMs, o Time Machine tira foto do volume a cada hora. Journal do HFS+ não é copy-on-write; hard link de diretório (o truque velho do Time Machine) não existe no APFS; timestamp de um segundo não serve para SSD que grava milhões de arquivos.

Dominic Giampaolo, um dos arquitetos, já tinha feito o filesystem do BeOS olhando para os buracos do HFS. O APFS é esse acerto de contas — fechado, no hardware que a Apple controla.

Container, volume, espaço compartilhado

A peça que muda o mapa mental: um container APFS é a partição. Dentro dele cabem vários volumes que dividem o espaço livre. Não é “Macintosh HD = 500 GB e Data = 500 GB”. É um pool. O volume do sistema e o volume de dados crescem e encolhem no mesmo tanque.

No Mac atual o layout típico é:

  • Preboot / Recovery / VM — volumes de sistema, o usuário quase não vê.
  • Macintosh HD — sistema selado (Signed System Volume, só leitura desde o Catalina/Big Sur).
  • Data — home, apps, o que você grava.

No Mac, para ver o container de verdade:

diskutil list
diskutil apfs list

Copy-on-write, clone e snapshot

Gravar um arquivo não pisa no bloco antigo: escreve noutro e atualiza a árvore. Daí saem três coisas que o HFS+ não tinha de graça:

  • Clone: duplicar um arquivo de 20 GB é instantâneo e quase não gasta disco — os dois nomes apontam para os mesmos blocos até alguém mudar um deles.
  • Snapshot: foto do volume num instante. O Time Machine local e o update do macOS (volume selado) vivem disso. Reverter um snapshot arbitrário no Disk Utility ainda é limitado; o tmutil cobre o Data.
  • Crash: metadado CoW + checksum. Não é ZFS/Btrfs com scrub de tudo, mas é outro mundo em relação ao journal do HFS+.

Criptografia é nativa (AES-XTS), por volume, com mais de uma chave — FileVault deixou de ser um “cofre aparafusado” em cima do HFS+.

Detalhes que importam no dia a dia: timestamp em nanossegundo, arquivo esparso de verdade, volume case-insensitive no Mac (o padrão) e case-sensitive no iOS e no Time Machine em APFS.

E no Linux?

O kernel ainda não monta APFS de fábrica. O caminho comunitário é o módulo linux-apfs-rw (pacote Ubuntu apfs-dkms), só leitura por padrão; escrita é experimental e pode corromper o container. FileVault/APFS encrypted o módulo não abre. O howto passo a passo — HFS+ com hfsprogs, APFS com DKMS, senha no apfs-fuse — está em Partição do Mac no Ubuntu.

# Ubuntu: identificar e montar leitura
lsblk -f
sudo apt install apfs-dkms linux-headers-$(uname -r)
sudo modprobe apfs
sudo mkdir -p /mnt/mac
sudo mount -t apfs -o ro /dev/sdXY /mnt/mac

O que sobrou do HFS+

Em 2026 o HFS+ ainda existe para instalador bootável do macOS. Disco Time Machine velho em HFS+ journaled continua montando no Mac. A Apple já avisou: a partir do macOS 28, volume HFS+ criptografado deixa de ser suportado — converte-se para APFS criptografado no Disk Utility, sem precisar descriptografar antes (exceto backup do Time Machine nesse formato).

Disco externo que precisa conviver com Windows continua sendo o caso do exFAT. APFS fora do ecossistema Apple ainda é o patinho feio: Linux experimental, Windows via Paragon pago.

Referencias

O APFS não pediu licença ao usuário em 2017: o iPhone acordou convertido. Nove anos depois, o “órgão vital” que ninguém vê é o que deixa clone, snapshot e FileVault parecerem mágica — e o que ainda dá trabalho quando o disco cai num Linux.