A história de Ian Murdock: o fundador do Debian

Ian Murdock em HQ de herói com o Tux e o swirl do Debian

Em agosto de 1993, um estudante de 20 anos em Purdue estava irritado com o Softlanding Linux System. Pacotes quebrados, instalação frágil, distro tratada como afterthought. Em vez de continuar remendando o SLS, Ian Ashley Murdock (Konstanz, 28 de abril de 1973) anunciou que ia começar do zero — em aberto, no espírito do GNU e do kernel que Linus Torvalds tinha solto dois anos antes. Chamou o projeto de Debian: Deb + Ian. Trinta e três anos depois, Ubuntu, Mint, Raspberry Pi OS e Kali ainda nascem dessa árvore.

Ele próprio conta essa origem na palestra Debian: Anatomy of an Open Source Project, na Microsoft Research, ainda como CTO da Linux Foundation: comunidade aberta, o manifesto, e por que o Debian não precisava ser “ameaça” a ninguém.

Konstanz, Lafayette e o COBOL que virou Unix

Os pais eram de Indiana; o pai fazia pós-doc na Alemanha quando Ian nasceu. A família voltou aos EUA em 1975 e, em 1977, se fixou em Lafayette: o pai virou professor de entomologia em Purdue. Ian saiu da Harrison High School em 1991 e entrou na Krannert School of Management. A disciplina obrigatória de programação oferecia COBOL ou FORTRAN. Escolheu COBOL por parecer “mais negócio”. O gosto por computador, adormecido na infância, voltou.

No inverno de 1992 viu uma workstation Sun. Unix de verdade, fora do laboratório. Em 1993 o PC já aguentava um clone: o Linux ainda não tinha 1.0, e a distro que ele pegou foi o SLS. “Depois de tanto alterar o SLS, decidi que seria mais fácil começar do zero.”

16 de agosto de 1993: o anúncio

O post público do Debian é de 16 de agosto de 1993. A ideia: distro desenvolvida em aberto, não por um grupo isolado; pacotes com padrão; manutenção contínua. Em janeiro de 1994 saiu o Debian Manifesto. A frase que o projeto ainda cita — e que ele repete na palestra acima:

Rather than being developed by one isolated individual or group, as other distributions of Linux have been developed in the past, Debian is being developed openly in the spirit of Linux and GNU.

A FSF patrocinou o começo. O primeiro logo, ideia de Richard Stallman, era um GNU bebê com cobertor — Linus dos Peanuts. O swirl vermelho de Raul Silva só chegou em 1999, quando Ian já tinha saído da liderança. Debra Lynn Roundy, então namorada, deu o Deb do nome; casaram em 1994, três filhos, divórcio em 2008.

dpkg, o pacote e a saída em 1996

O formato .deb e o primeiro dpkg nasceram nesse período — Ian escreveu a versão inicial; Ian Jackson e o resto do projeto reescreveram em C. O APT, o apt-get install que virou verbo, veio depois (1998), já sem ele no comando. O que ele deixou foi o modelo: pacote com metadado, dependência declarada, distro como acervo comunitário e não como ISO de um guru.

Em março de 1996 passou a liderança para Bruce Perens — precisava terminar a graduação e ganhar a vida. Formou-se em ciência da computação em Purdue no mesmo ano. Perens, em 1997, escreveu o Contrato Social e as Debian Free Software Guidelines; a Open Source Definition de Eric Raymond saiu dali. Ian plantou o projeto; o DFSG é o capítulo seguinte. A história mais longa do Unix/Linux neste blog está em Linux faz 35 anos e em UNIX — a origem.

Progeny, LSB e a Linux Foundation

Em 1999 fundou a Progeny Linux Systems com o CTO no peito: Debian comercial para appliance, set-top box, servidor enxuto — “componentized Linux”, o ancestral do que depois se chamou distro para container. A empresa sobreviveu ao estouro da bolha. O PDK acabou nas mãos da 64 Studio.

Em 2006 virou CTO da Free Standards Group e chair do Linux Standard Base. Quando a FSG se fundiu com a OSDL na Linux Foundation, seguiu como CTO. É nesse cargo que ele dá a palestra da Microsoft Research: origem do Debian, o modelo comunitário (o “app store” dos repositórios, anos antes da loja da Apple) e a tese de que open source e indústria podem coexistir. Interoperabilidade de ABI, o sonho de “um Linux” para ISV — o LSB não virou o POSIX do desktop, mas o cargo diz o tamanho que o Debian tinha ganhado.

Sun, Project Indiana, Salesforce, Docker

Em março de 2007 foi para a Sun Microsystems liderar o Project Indiana: “pegar a lição que o Linux trouxe ao sistema operacional e aplicar no Solaris”. OpenSolaris com GNOME, userland GNU e gerenciador de pacotes em rede. Ele explica o projeto em seis minutos num update oficial da Sun (2007) e numa entrevista no LinuxTag de Berlim (2008). O ramo virou o Solaris 11; a Oracle, depois da compra, matou o OpenSolaris em 2010. Ian saiu.

De 2011 a 2015 foi vice-presidente de plataforma e comunidade de desenvolvedores na ExactTarget / Salesforce Marketing Cloud, em Indianápolis — Fuel, HubExchange, Code@ExactTarget. Em novembro de 2015 entrou na Docker. Durou um mês.

28 de dezembro de 2015

Ian morreu em São Francisco em 28 de dezembro de 2015, aos 42 anos. O laudo, em julho de 2016, classificou suicídio. Nos dias anteriores houve detenção pela polícia da cidade e uma sequência de tuítes que o próprio apagou. A família pediu privacidade; a Docker e o projeto Debian publicaram notas. O Debian 9 “Stretch” (2017) foi dedicado a ele.

Não cabe transformar o desfecho em lenda policial. Cabe o fato: o fundador de uma das distros mais estáveis da história não estava bem, e o projeto que ele largou em 1996 já não dependia dele para continuar — que era exatamente o desenho do Manifesto.

O que ficou

Debian ainda é a distro que outras distros copiam. Ubuntu nasceu dela; Raspberry Pi OS, Kali, Mint, Tails, o servidor que você instala com apt — a árvore é a mesma. O swirl de 1999 não é dele; o nome, o manifesto e a recusa de tratar distro como produto de um único guru são. Em 2026 o Debian segue no ciclo estável (Trixie/13 e o rumo do Forky), ainda com o Contrato Social, ainda sem dono.

Mais neste blog: pioneiros do opensource, a biografia de Linus Torvalds e a de Aaron Swartz — três jeitos diferentes de deixar um formato na mesa e sair de cena.