
Em 1997 Wietse Venema, no IBM Thomas J. Watson Research Center, começou a escrever um MTA para não ter de conviver com o Sendmail. Em 14 de dezembro de 1998 o código abriu. Chamou-se VMailer, depois IBM Secure Mailer, depois Postfix — “post” de correio, “fix” de conserto. Vinte e oito anos depois o Postfix 3.11.6 (10 de agosto de 2026) ainda entrega carta em mais servidores visíveis no Shodan do que o Exim, e continua o default de muita distro, Ubuntu incluído.
Watson, Sendmail e um holandês teimoso
Wietse Venema já era nome conhecido antes do Postfix. TCP Wrapper (hosts.allow / hosts.deny), SATAN, o trabalho em segurança na Universidade de Tecnologia de Eindhoven e depois na IBM. Sendmail, de Eric Allman, era o MTA do mundo Unix: monolito, configuração que parece mictório de alienígena (sendmail.cf), histórico de buraco. Venema queria três coisas que o Sendmail não dava de graça: segurança por desenho, desempenho sob carga, e administração que um humano consegue ler.
A IBM deixou abrir o código. Primeiro nome, VMailer, bateu em marca. IBM Secure Mailer era nome de laboratório. Postfix pegou: o correio, e o bugfix. Licença IBM Public License 1.0 — OSI, mas com cláusula de patente que alguns projetos evitam. A partir da 3.2.5 o código também sai em Eclipse Public License 2.0, à escolha de quem distribui. Dual license, o mesmo espírito de “use sem processo”.
O desenho: um mestre e muitos pedaços
A sacada do Postfix não é um daemon gordo. É um processo master que nasce filhos com privilégio mínimo, cada um uma função. Quem fala SMTP na porta 25 é o smtpd. Quem entrega na caixa local é o local (ou o virtual). Quem gerencia a fila é o qmgr. Quem reescreve endereço é o trivial-rewrite. Quem sai para outro MX é o smtp. Há pickup, cleanup, bounce, defer, error, flush, proxymap, verify, anvil, scache, tlsproxy, postscreen, dnsblog.
Se o smtpd toma um overflow, o resto da fila não cai junto. Cada serviço tem chroot opcional, UID próprio, limite de memória e de tempo. Foi isso que Venema desenhou em 1997, quando ainda se lia advisory de Sendmail toda semana. A fila vive em /var/spool/postfix — incoming, active, deferred, hold, corrupt. postqueue -p e postsuper são o dia a dia. main.cf cabe numa tela; master.cf lista os serviços.
Por que ganhou do Sendmail (e empata com o Exim)
Nos anos 2000 o Sendmail ainda era o default de muita distro. O Postfix entrou pelo Ubuntu, pelo Fedora, por quem administrou um servidor de verdade e não quis mais m4. Qmail, de Dan Bernstein, teve a mesma obsessão de segurança — e uma licença que travou distro. Exim, de Cambridge, ficou forte em hospedagem compartilhada (cPanel). OpenSMTPD é o da OpenBSD. O Postfix ficou no meio: modular como o Qmail, configurável como gente grande, licença que o Debian engole.
Pesquisa pequena (E-Soft, fevereiro de 2025) ainda punha Exim na frente. Scan largo do Shodan, metade de agosto de 2026: Postfix ~2,1 milhões de detecções, Exim ~1,9 milhão. Alguns sites bloqueiam o Shodan; a ordem, mesmo assim, virou. Default no Ubuntu Server. Presente em appliance, em Zimbra por baixo, em lista, em relay de empresa que não quer Exchange.
TLS, milter, postscreen: o MTA adulto
O Postfix de 1998 falava SMTP clássico. O de 2026 fala o resto que o correio exigiu para não virar lixo:
- TLS (STARTTLS e porta 465), DANE/TLSA, PFS, SNI.
- Milter — a mesma API que o Sendmail inventou — para SpamAssassin, OpenDKIM, OpenDMARC, rspamd.
postscreenna frente dosmtpd: greylist barato, drop de bot que não fala SMTP direito, antes de gastar um processo pesado.- SRF/SASL, submission 587, filtro
header_checks/body_checks, policy daemon nosmtpd_recipient_restrictions. - MySQL, PostgreSQL, LDAP, SQLite como mapa. Caixa virtual sem conta Unix.
Quem monta stack de correio neste blog ainda passa por Zimbra — que usa Postfix por baixo — em Instalação do Zimbra 8.7.1 no Ubuntu. O painel de hospedagem que nasceu na mesma época está em A História do Projeto ISPConfig.
2026: 3.11.6, Qualys e o rato que não aposenta
A estável 3.11.0 saiu em 5 de março de 2026. A 3.11.6, em 10 de agosto, veio com correção de impacto médio: DoS remoto e bypass de policy. Qualys, com ajuda do Claude Mythos Preview, e a equipe de segurança da OpenAI acharam a maior parte — mais da metade dos defeitos tinha vinte anos ou mais. Venema, no anúncio, foi direto: quando implementou o Postfix já sabia que haveria erro; por isso a arquitetura e as redes de proteção. Cento e cinquenta mil linhas, taxa de defeito abaixo do que ele tinha desenhado para aguentar.
As estáveis com suporte em setembro de 2026 são 3.11, 3.10, 3.9 e 3.8. A 3.7 chegou ao fim em 6 de março de 2026. Snapshot experimental da 3.12 (postfix-3.12-20260819) já circula. O rato cinza com o saco amarelo escrito MAIL — a mysza de Andrzej Adam Filip — continua o mascote oficial. Wietse continua o maintainer.
O que ficou
Um pesquisador holandês na IBM, um monolito que todo mundo temia e um desenho de processos pequenos. O Sendmail não morreu no primeiro dia; foi sendo desinstalado. O Postfix não é “moderno” no sentido de Go e YAML. É C, main.cf e um master que não confia nos filhos. Por isso ainda está na porta 25.
A história maior do Unix/Linux neste blog está em A História dos Sistemas Operacionais, UNIX — A Origem dos Sistemas e Linux faz 35 anos. O hipervisor em que muita gente virtualiza o MX, em Proxmox.
De Watson a 3.11.6: o correio que o Sendmail não deu. IPL ou EPL 2.0, fila em disco, rato com saco amarelo. Vinte e oito anos, e o mailq ainda responde.