
GLPI é a sigla francesa de Gestionnaire Libre de Parc Informatique — o gerente livre do parque de máquinas. Nasceu em 2003 na associação INDEPNET, virou produto da Teclib’ em 2015 e, em 1º de outubro de 2025, chegou à 11. Em junho de 2026 o estável da comunidade é o 11.0.8; o 10.0 ainda recebe correção. Abaixo a linha, sem o folclore do “ITIL de graça”.
IRMA, INDEPNET, a 0.2
Jean-Mathieu Doléans era presidente da INDEPNET, associação francesa de software livre voltada a entidades que ainda inventariavam o parque em planilha. Bazile Lebeau pegou o código de um projeto chamado IRMA, adaptou para o empregador, e o trio — Doléans, Lebeau e, a partir de 2004, Julien Dombre — reempacotou, traduziu, refez a interface e deu nome novo. O próprio Doléans, no podcast Projets Libres dos 20 anos, diz: não foi um rename de etiqueta. Foi refatoração. A primeira versão pública estável é a 0.2, 17 de novembro de 2003, GPL. O CHANGELOG do GitHub ainda carrega a 0.21 de 2 de dezembro daquele ano, com script SQL de migração — o hábito de glpi-X-TO-Y.sql já estava lá.
O alvo inicial era PME e associativismo na França. O prêmio Open Source Award na categoria segurança, no mesmo ano, aparece na linha do tempo oficial da Teclib’. Julien Dombre entrou em 2004: engenheiro de laboratório, gestor de parque, “interessado” no sentido literal — precisava da ferramenta.
Do 0.5 ao 0.78: entidade, ITIL, OCS
0.5 (29 abr 2005), 0.6, 0.65, 0.68. Em 21 de dezembro de 2007 a 0.70 entrega o que ainda vende o produto no setor público: multi-entidade — um GLPI, vários “parques”, isolamento. A 0.78 (12 de outubro de 2010) declara compatibilidade ITIL: ticket, atribuição, SLA no vocabulário de service desk. Inventário fino — máquina, monitor, impressora, software, contrato — já era o miolo; o helpdesk cresceu em volta.
O agente de inventário, no começo, era o OCS Inventory NG embutido. Em agosto de 2013 a 0.84 tira o “modo OCS” do núcleo e manda para o plugin ocsinventoryng: o timing de versão GLPI×OCS tinha virado pesadelo de manutenção. Em fevereiro de 2010, no FOSDEM, nasce o FusionInventory — agente (ex-OCS Unix) + plugin SNMP/descoberta para o GLPI, protocolo XML do OCS de propósito. Durante uma década o casal GLPI + FusionInventory foi o pacote padrão de quem não queria SCCM.

Teclib’: de ouro a editora
A Teclib’ aparece em 2009 como integradora, parceira Gold, depois Platinum em 2011 — no mesmo ano a Teclib conta 1 milhão de downloads. Empresa francesa; o about atual fala fundação em 2011 e “mais de 60 pessoas”. Em 26 de março de 2015 o site da Teclib anuncia que o projeto “acelera numa casa nova”. No verão, a liderança comunitária da INDEPNET passa roadmap e R&D para a Teclib, que vira éditeur. O código continua GPL. O GitHub glpi-project/glpi é criado em 16 de julho de 2015 — a forge antiga era forge.indepnet.net.
Em 9 de outubro de 2015 sai a 0.90, última da série 0.x. Em 23 de setembro de 2016 a 9.1 mata o zero à esquerda. Plugin, tradução (Transifex), rede de parceiros. Em 2019, GLPI Network Cloud. Em 7 de julho de 2020 a 9.5 traz o Marketplace — plugin deixa de ser só tarball na mão.
Inventário nativo, GPL-3, o Agent
A 10.0 (20 de abril de 2022) redesenha a interface e mete inventário nativo no core, com o GLPI Agent. O formato XML ainda fala a língua do FusionInventory/OCS. Em maio de 2022 a Teclib publica o mea culpa: o núcleo era GPL-2.0-or-later, o FusionInventory AGPL-3.0-or-later, e o copyright do projeto anterior não tinha sido creditado direito. A correção: créditos no fonte e licença do GLPI para GPL-3.0-or-later (o “or later” da v2 permitia o salto; GPL-3 e AGPL-3 combinam). Quem só usa o GLPI não muda de vida. Quem deriva código passa a GPL-3 compatível. O Agent segue no GitHub glpi-project/glpi-agent — 1.19 em agosto de 2026, com suporte experimental ao 12.
GLPI 10, vinte anos, GLPI 11
A 10.0 é o visual “moderno” que a maior parte do parque ainda roda. Em 2023 o projeto faz 20 anos. Em 30 de setembro de 2025 o blog oficial grita “GLPI 11 is out”; o tag GitHub 11.0.0 é de 1º de outubro de 2025. Destaques da major:
- ativos customizados nativos (o que era Generic Object + Fields no plugin)
- formulários no core, editor interativo
- portal self-service novo
- 2FA
- webhooks
- High-Level API
Under 24 de junho de 2026 saem juntas a 11.0.8 and the 10.0.26 — as duas ainda são linha de segurança. A 12.0.0-rc1 (3 set 2026) é pré-release: knowledge base refeita, sessions manager, sudo mode. Não vai para produção.
O PHP do GLPI 11 pede 8.2+; na prática, 8.3/8.4/8.5 no FPM. O mapa de várias versões neste blog: Nginx and various PHP versions.
O que o GLPI é — e o que não é
ITAM (inventário, contrato, licença, datacenter) + ITSM (ticket, problema, mudança, projeto) + base de conhecimento + reservas. Multi-entidade. LDAP. É o Zabbix do chamado, não o do ICMP — o Zabbix mede; o GLPI registra quem tem o notebook e quem abriu o ticket. O Nagios pageia. O GLPI fecha o chamado.
A comparação que mais importa na hora de escolher é com o OTRS e seus forks: os dois abrem chamado, mas partem de lugares opostos. O OTRS nasceu como fila de e-mail — a caixa postal é a porta de entrada, e o inventário nunca foi o assunto. O GLPI nasceu como inventory — o helpdesk cresceu em volta do patrimônio. Se o seu problema é “quem respondeu esse e-mail e em quanto tempo”, OTRS ou Znuny. Se é “de quem é esse notebook, qual a garantia e qual chamado ele já gerou”, GLPI.
A edição comunidade (GitHub, GPL-3) é o software. A GLPI Network é assinatura Teclib: plugins oficiais, suporte, nuvem. O core não fica refém da assinatura. No Brasil o site oficial cita o Grupo DPSP (farmácias) e o Consórcio DPZ (Pernambuco) como casos Network — o parque público francês e a universidade foram o chão original.
Rodando hoje, no seu Linux
A pergunta prática de quem chega neste post: quero inventariar o parque e abrir chamado — o que instalo em 2026? A resposta é GLPI 11, com o GLPI Agent nas máquinas. Duas peças, nesta ordem.
O servidor
Vale para Debian 12/13 e Ubuntu 24.04/26.04. O GLPI 11 exige PHP 8.2 ou mais novo:
sudo apt update
sudo apt install -y nginx mariadb-server
php-fpm php-mysql php-mbstring php-curl php-gd php-xml php-intl
php-ldap php-zip php-bz2 php-bcmath
# banco
sudo mariadb -e "CREATE DATABASE glpi CHARACTER SET utf8mb4 COLLATE utf8mb4_unicode_ci;"
sudo mariadb -e "CREATE USER 'glpi'@'localhost' IDENTIFIED BY 'troque-esta-senha';"
sudo mariadb -e "GRANT ALL ON glpi.* TO 'glpi'@'localhost'; FLUSH PRIVILEGES;"
# o GLPI precisa das timezones carregadas no MariaDB, ou reclama na instalação
sudo mariadb-tzinfo-to-sql /usr/share/zoneinfo | sudo mariadb mysql
sudo mariadb -e "GRANT SELECT ON mysql.time_zone_name TO 'glpi'@'localhost';"
# baixe a versão estável do GitHub e confira o checksum publicado no release
cd /tmp
VER=11.0.8
curl -fLO https://github.com/glpi-project/glpi/releases/download/${VER}/glpi-${VER}.tgz
sudo tar xzf glpi-${VER}.tgz -C /var/www/
sudo chown -R www-data:www-data /var/www/glpi
Um detalhe de segurança que muita instalação por aí ignora: só o diretório public/ deve ser servido pela web. O resto — config/, files/, marketplace/ — fica fora da raiz do vhost:
server {
listen 443 ssl;
http2 on;
server_name glpi.exemplo.com.br;
root /var/www/glpi/public;
client_max_body_size 100m;
location / {
try_files $uri /index.php$is_args$args;
}
location ~ ^/index.php$ {
include snippets/fastcgi-php.conf;
fastcgi_pass unix:/run/php/php8.3-fpm.sock;
}
}
sudo systemctl reload nginx
# abra https://glpi.exemplo.com.br/install/install.php
Terminada a instalação pelo navegador, apague o instalador e troque as senhas padrão — o GLPI cria quatro contas conhecidas (glpi, tech, normal, post-only), todas com senha igual ao usuário:
sudo rm -f /var/www/glpi/install/install.php
E o cron, sem o qual notificações, coleta de e-mail e tarefas automáticas simplesmente não rodam:
echo '* * * * * www-data /usr/bin/php /var/www/glpi/front/cron.php'
| sudo tee /etc/cron.d/glpi
O agente nas máquinas
The GLPI Agent (1.19, de agosto de 2026) é o que preenche o inventário sozinho. Ele roda em Linux, Windows e macOS, e fala o mesmo XML herdado do FusionInventory:
# Debian/Ubuntu
sudo apt install -y glpi-agent
# aponte para o servidor
sudo sed -i 's|^#?server =.*|server = https://glpi.exemplo.com.br/front/inventory.php|'
/etc/glpi-agent/agent.cfg
sudo systemctl enable --now glpi-agent
# forçar um inventário agora, para conferir
sudo glpi-agent --force
Para o que não aceita agente — switch, impressora de rede, nobreak —, o caminho é a descoberta por SNMP, configurada no próprio painel do GLPI.
Ou de container
Não há imagem oficial mantida pela Teclib’, mas as imagens da comunidade resolvem um laboratório em minutos. Para produção, prefira a instalação acima: você vai querer controlar a versão do PHP, o cron e o backup do files/.
Backup
# banco
sudo mysqldump --single-transaction glpi | gzip > /var/backups/glpi-$(date +%F).sql.gz
# documentos anexados e configuração — esquecer isto é o erro clássico
sudo tar czf /var/backups/glpi-files-$(date +%F).tar.gz -C /var/www/glpi files config
Timeline
- 17/nov/2003 — GLPI 0.2, primeira versão pública estável (GPL), na INDEPNET
- 2004 — Julien Dombre entra no projeto
- 2005 — Série 0.5
- 21/dez/2007 — 0.70: multi-entidade
- 2010 — FOSDEM: nasce o FusionInventory; 0.78 declara compatibilidade ITIL
- 2015 — Teclib’ torna-se éditeur; repositório vai para o GitHub; sai a 0.90
- 2016 — GLPI 9.1 (fim do “0.” à esquerda)
- 2020 — 9.5 traz o Marketplace
- 20/abr/2022 — 10.0: inventário nativo (GLPI Agent); licença passa a GPL-3
- 2023 — GLPI faz 20 anos
- 1º/out/2025 — GLPI 11 (ativos customizados, formulários no core, 2FA, webhooks)
- 24/jun/2026 — 11.0.8 e 10.0.26 (linhas de segurança); 12.0.0-rc1 em teste
O que ficou
Um IRMA reescrito, um nome em quatro letras, uma associação, uma editora. PHP e MariaDB, ticket e patrimônio. A 0.2 cabia num laboratório; a 11 inventaria o ativo que você inventar. O git é github.com/glpi-project/glpi. Quem ainda está no 9.5: o pulo é 10, depois 11 — não pule o intermediário sem ler o changelog de migração.
Teclib 20 anos / CHANGELOG 0.2: CHANGELOG.txt histórico · anúncio Teclib 2015: Teclib becomes the cradle · licença: About GLPI license · GLPI 10: 20 abr 2022 · GLPI 11: glpi-project.org · 11.0.8: GitHub · podcast INDEPNET: Projets Libres #07.