
Em 5 de abril de 2017, Mark Shuttleworth, fundador do Ubuntu e da Canonical, publicou um comunicado que encerrou uma das maiores apostas da história da distribuição: a Canonical abandonaria o Unity8 e a estratégia de convergência (o mesmo sistema no desktop, no tablet e no celular), voltando o desktop padrão do Ubuntu para o GNOME a partir do 18.04 LTS. Era o fim de seis anos de uma interface que dividiu a comunidade como poucas.
O que era o Unity, e por que ele existiu
O Unity estreou em 2010 (no Ubuntu 10.10 Netbook Edition) e virou padrão no 11.04. A ideia era ousada para a época: uma interface única que escalasse do notebook ao smartphone, com a launcher lateral, o Dash de busca global e o menu global no topo. A aposta maior veio depois — a convergência: você conectaria o celular a um monitor e ele viraria um PC, rodando o mesmo Unity8 sobre o servidor gráfico próprio da Canonical, o Peace. Havia o Ubuntu Phone, tablets, campanha de financiamento coletivo do Ubuntu Edge — tudo apontando para esse futuro.
A comunidade nunca abraçou o Unity por inteiro. Para muitos, ele representou fragmentação (mais um desktop, mais um servidor gráfico fora do padrão freedesktop), telemetria polêmica (o infame “Amazon lens” que buscava produtos no Dash) e esforço desviado do que já funcionava. A indústria, por sua vez, não aderiu à convergência: os fabricantes preferiram “o diabo conhecido” ou plataformas próprias.
O anúncio de Shuttleworth, em suas palavras
No comunicado, Shuttleworth foi honesto sobre a derrota. Vale recuperar os trechos centrais (tradução livre):
“Vou avisá-los de que encerraremos nosso investimento no Unity8, o shell de telefone e convergência. Voltaremos o desktop padrão do Ubuntu para o GNOME no Ubuntu 18.04 LTS. […] Eu parti do princípio de que, se a convergência era o futuro e pudéssemos entregá-la como software livre, isso seria amplamente apreciado. Eu estava errado nas duas contas. Na comunidade, nossos esforços foram vistos como fragmentação, não inovação. E a indústria não abraçou a possibilidade.”
Ele reforçou que a Canonical seguiria investindo no desktop Ubuntu “do qual milhões dependem” e que a decisão, embora pessoalmente dolorosa, era moldada por restrições comerciais: o dinheiro iria para onde havia crescimento — nuvem e IoT. “A maior parte das cargas de trabalho em nuvem pública, e a maior parte das infraestruturas privadas de nuvem Linux, dependem do Ubuntu”, escreveu, citando OpenStack, Kubernetes, MAAS, LXD, Juju e os snaps/Ubuntu Core como o eixo do futuro da empresa.
O que aconteceu depois
A transição foi rápida e, para surpresa de muitos, tranquila. O Ubuntu 17.10 “Artful Aardvark” (outubro de 2017) já veio com GNOME Shell — mas com uma sessão customizada que imitava o Unity (launcher à esquerda, tema Ambiance), suavizando o choque para quem vinha de anos de Unity. O 18.04 LTS consolidou o GNOME como o rosto do Ubuntu, como ele segue até hoje.
O resto da aposta teve destinos diferentes:
- Ubuntu Phone / Ubuntu Touch — a Canonical encerrou o projeto, mas a comunidade UBports assumiu o código e mantém o Ubuntu Touch vivo até hoje em alguns aparelhos.
- Unity7 — a interface antiga (a que a maioria usou de 2011 a 2017) passou a ser mantida pela comunidade. Em 2023, o Ubuntu Unity virou flavor oficial reconhecido pela Canonical, para quem tem saudade.
- Unity8 / Lomiri — foi renomeado para Lomiri e segue mantido pela UBports.
- Peace — o servidor gráfico não morreu: a Canonical o reposicionou como base para displays de IoT e quiosques, hoje falando o protocolo Wayland em vez de competir com ele.
Timeline
- 2010 — Unity estreia no Ubuntu 10.10 Netbook Edition
- 2011 — Unity vira o desktop padrão do Ubuntu (11.04)
- 2013 — Campanha do Ubuntu Edge; aposta na convergência e no Mir
- 5/abr/2017 — Shuttleworth anuncia o fim do Unity8 e a volta ao GNOME
- out/2017 — Ubuntu 17.10 já vem com GNOME Shell
- 2018 — Ubuntu 18.04 LTS consolida o GNOME como padrão
- 2017+ — UBports assume o Ubuntu Touch; Unity8 vira Lomiri
- 2023 — Ubuntu Unity torna-se flavor oficial (Unity7 mantido pela comunidade)
O que ficou dessa história
A aposta da Canonical falhou como produto, mas acertou como diagnóstico: o futuro da empresa estava mesmo na nuvem e na infraestrutura, não no celular. Quase uma década depois, o Ubuntu é o Linux mais usado em servidores de nuvem pública, os snaps se espalharam (para o bem e para a polêmica) e a convergência que a Canonical não conseguiu vender virou, de outra forma, realidade em outros ecossistemas.
Para o usuário de desktop, ficou a lição de que comunidade e mercado — não a visão de um fundador, por mais convicto — decidem quais produtos crescem e quais desaparecem. E ficou também a prova de que, no software livre, nada morre de vez: Unity7, Unity8 e Ubuntu Touch seguem vivos nas mãos de quem quis mantê-los. Para o contexto maior dessa distribuição, vale A história de Ian Murdock, o fundador do Debian que deu origem ao Ubuntu.