A história de Steve Jobs: a garagem e a maçã

Steve Jobs de gola alta preta diante da garagem de Los Altos e da maçã arco-íris da Apple ao entardecer

Em 1º de abril de 1976, três homens assinaram a fundação de uma empresa numa garagem em Los Altos: Steven Paul Jobs, Stephen Gary Wozniak e Ronald Wayne. Wayne, assustado com o risco, vendeu seus 10% por US$ 800 apenas doze dias depois — a participação que valeria dezenas de bilhões. Trinta e cinco anos mais tarde, em 5 de outubro de 2011, Jobs morreu em Palo Alto, aos 56 anos, deixando para trás a empresa de tecnologia mais valiosa do mundo. Esta é a história do homem que não inventou quase nada — e mesmo assim redefiniu tudo que tocou.

1955–1974: adoção, Homestead e a caligrafia

Jobs nasceu em San Francisco em 24 de fevereiro de 1955. Os pais biológicos, Joanne Schieble e Abdulfattah Jandali (um sírio que viraria professor universitário), entregaram o bebê para adoção. Quem o criou foram Paul Jobs, maquinista, e Clara Hagopian, contadora — uma família de classe trabalhadora de Mountain View, no coração do que viraria o Vale do Silício.

Na Homestead High, em Cupertino, por volta de 1971, um amigo em comum o apresentou a Steve Wozniak, cinco anos mais velho e já obcecado por projetar máquinas. Em 1972, Jobs entrou no Reed College, em Portland, mas largou o curso no primeiro semestre — embora tenha continuado a assistir, como ouvinte, às aulas de caligrafia. Anos depois ele creditaria a essa curiosidade a recusa em aceitar fontes feias no Macintosh. Vieram então a Atari (1974, projetando jogos) e uma viagem à Índia no mesmo ano, atrás de um guru. Voltou magro, de cabeça raspada e com o Zen na bagagem. Foi nessa época que ele e Wozniak montaram a Blue Box, o aparelho ilegal que clonava o tom das operadoras para fazer ligações de graça: Woz construía, Jobs vendia. O padrão da dupla já estava definido.

1976–1984: a maçã, o Apple II e o Macintosh

Wozniak levou o Apple I ao Homebrew Computer Club para exibir aos colegas. Jobs enxergou um cliente. Paul Terrell, da Byte Shop em Mountain View, encomendou 50 placas montadas a US$ 500 cada; a dupla vendeu uma Kombi e uma calculadora HP, comprou as peças a prazo e entregou. Foram cerca de 200 unidades, vendidas a US$ 666,66. Ronald Wayne, ex-Atari, desenhou o primeiro logotipo e caiu fora. A história do engenheiro por trás das máquinas está em A história de Steve Wozniak.

The Apple II, apresentado na West Coast Computer Faire em junho de 1977, foi o salto: cor, BASIC em ROM e slots de expansão. Mike Markkula entrou com dinheiro e disciplina empresarial. O IPO em 12 de dezembro de 1980 fez de Jobs, aos 25 anos, um multimilionário. Uma visita ao Xerox PARC em 1979 plantou a semente: lá estavam o Alto, o mouse e as janelas. O Lisa (1983) tentou levar aquilo ao mercado e saiu caro demais. Foi o Macintosh, lançado em 24 de janeiro de 1984 com o comercial de Ridley Scott no Super Bowl, que colocou a interface gráfica ao alcance das pessoas comuns. Na tela, uma única palavra: “Hello.”

1985–1996: a porta da rua, o cubo e o brinquedo

John Sculley, o executivo que Jobs trouxera da Pepsi em 1983 com a célebre frase sobre “vender água com açúcar ou mudar o mundo”, virou o conselho contra ele. Em maio de 1985 Jobs perdeu o controle do Macintosh e, em 17 de setembro, pediu demissão da própria empresa. Levou consigo um punhado de gente e fundou a NeXT: estações de trabalho pretas, lindas e caríssimas, voltadas ao meio acadêmico. O hardware vendeu pouco, mas o software — o NeXTSTEP, construído sobre o microkernel Mach, com Display PostScript e Objective-C — sobreviveria a tudo. Não por acaso, Tim Berners-Lee escreveu o primeiro navegador da web num NeXT.

Em fevereiro de 1986, Jobs comprou a divisão de computação gráfica da Lucasfilm por US$ 10 milhões e a batizou de Pixar. No começo, vendia hardware de renderização. Então veio Toy Story, em 1995 — o primeiro longa-metragem 100% em CGI —, que transformou a Pixar em estúdio e Jobs em bilionário na abertura de capital. A Disney compraria a Pixar em 2006, tornando Jobs seu maior acionista individual e membro do conselho.

1996–2007: a volta, o “i” e o telefone

A Apple, afundada e sem um sistema operacional moderno, comprou a NeXT em 20 de dezembro de 1996 por cerca de US$ 429 milhões — e, junto, trouxe Jobs de volta. Ele reassumiu como conselheiro, virou CEO interino em 1997 e efetivo em 2000. Cortou linhas de produto, fechou um acordo de sobrevivência com a Microsoft (Bill Gates investiu US$ 150 milhões) e disparou a sequência que refez a empresa: iMac (1998), iPod (2001), iTunes Store (2003).

O clímax veio no Macworld de 9 de janeiro de 2007: “um iPod, um telefone e um comunicador de internet”. Não eram três aparelhos — era o iPhone. A App Store chegou em 2008, o iPad em 2010, e naquele ano a Apple ultrapassou a Microsoft em valor de mercado. Por baixo de tudo isso corre uma herança que interessa a quem lê este blog: o Darwin, núcleo open source que a Apple publica, desce direto do Mach/NeXTSTEP; o motor WebKit nasceu do KHTML do projeto KDE. Quem compila um WebKit ou brinca com um hackintosh está, sem saber, mexendo no legado do cubo preto. O outro lado dessa mesa — o sistema que a Apple nunca foi — está em Linux faz 35 anos e em A história do UNIX.

2003–2011: o câncer e o “oh wow”

Under 2003, os médicos diagnosticaram um tumor neuroendócrino no pâncreas — uma forma rara e mais tratável, cuja cirurgia Jobs adiou por meses tentando dietas alternativas, decisão de que se arrependeria. Operou em 2004, tirou licença em 2009 para um transplante de fígado, e ainda subiu ao palco para apresentar o iPad 2 em março de 2011, sob ovação. Em 24 de agosto de 2011 renunciou ao cargo de CEO e indicou Tim Cook: “sempre disse que, se um dia eu não pudesse mais cumprir meus deveres, eu seria o primeiro a avisar. Infelizmente, esse dia chegou.”

Morreu em casa, em Palo Alto, em 5 de outubro de 2011, de parada respiratória ligada ao câncer, aos 56 anos. A irmã, a escritora Mona Simpson, relatou as últimas palavras no funeral: “OH WOW. OH WOW. OH WOW.” Foi enterrado numa cova sem identificação no cemitério Alta Mesa. Em 2022 recebeu, postumamente, a Medalha Presidencial da Liberdade. Deixou a esposa Laurene Powell (casados em 1991 no Yosemite) e os filhos Reed, Erin e Eve — além de Lisa Brennan-Jobs, a filha da adolescência que ele demorou anos para reconhecer.

Timeline

  • 24/fev/1955 — Nasce em San Francisco; adotado por Paul e Clara Jobs
  • 1971 — Conhece Steve Wozniak na Homestead High
  • 1972 — Entra e larga o Reed College (fica nas aulas de caligrafia)
  • 1974 — Atari e viagem à Índia; Blue Box com Wozniak
  • 1º/abr/1976 — Fundação da Apple; Wayne vende os 10% por US$ 800
  • 1977 — Apple II na West Coast Computer Faire
  • 1979 — Visita ao Xerox PARC (mouse, janelas, GUI)
  • 12/dez/1980 — IPO da Apple; Jobs multimilionário aos 25
  • 24/jan/1984 — Lançamento do Macintosh
  • 1985 — Perde o poder interno e deixa a Apple; funda a NeXT
  • 1986 — Compra a Pixar da Lucasfilm por US$ 10 milhões
  • 1995Toy Story, primeiro longa 100% CGI
  • 20/dez/1996 — Apple compra a NeXT; Jobs retorna
  • 1997–2000 — CEO interino e depois efetivo; acordo com a Microsoft
  • 1998–2003 — iMac, iPod e iTunes Store
  • 2003 — Diagnóstico de câncer no pâncreas
  • 9/jan/2007 — Anúncio do iPhone
  • 2010 — iPad; Apple ultrapassa a Microsoft em valor
  • 24/ago/2011 — Renuncia ao cargo de CEO; indica Tim Cook
  • 5/out/2011 — Morre em Palo Alto, aos 56 anos

O que ficou

Jobs não inventou o computador pessoal, o desenho animado em CGI, o tocador de música digital nem o smartphone. O que ele fez foi apertar cada uma dessas coisas até caberem numa mesa, num bolso, nas mãos de uma criança — e transformar bom gosto em estratégia de negócio. Tratava a feiura como defeito de caráter. Wozniak montava o circuito; Jobs fazia o mundo querer o circuito.

Por isso a capa deste post é a garagem de Los Altos no blue hour, e não o palco de vidro de Cupertino: a maçã de seis cores de 1977 no telhado do ranch house, o homem de gola alta na calçada. Todo o resto — o iPhone no seu bolso, o Mac na sua mesa — foi consequência daquela garagem.