
Em 4 de abril de 1975, num quarto do Sundowner Hotel na Route 66, em Albuquerque, William Henry Gates III e Paul Allen formalizaram a “Micro-Soft”: 60% para Gates, 40% para Allen, e um BASIC para o computador Altair 8800 como único produto. Cinquenta anos depois, a Microsoft vale trilhões, roda mais Linux do que Windows no seu próprio Azure, e Gates se dedica a doar quase tudo o que lhe resta até 2045. Esta é a história do homem que ensinou a indústria a cobrar por software — e viu a própria empresa, décadas depois, abraçar o código aberto que um dia tentou conter.
Lakeside, o teletype e o Traf-O-Data
Gates nasceu em Seattle em 28 de outubro de 1955, filho de um advogado e de uma conselheira de fundação. Na Lakeside School, o clube de mães comprou tempo de uso num teletype ligado a um computador GE — e Gates, com Paul Allen (três anos mais velho), passou a virar noites programando em fita de papel perfurado. Em 1972, os dois montaram o Traf-O-Data, um aparelho que lia fitas de contagem de tráfego com um processador Intel 8008: o ensaio geral do que viria. Gates entrou em Harvard em 1973, mas nunca se formaria.
O ponto de virada foi a capa de janeiro de 1975 da revista Popular Electronics, estampando o Altair 8800 da MITS, de Ed Roberts, em Albuquerque. Allen a viu na banca; Gates ligou para Roberts afirmando que os dois já tinham um interpretador BASIC pronto para a máquina. Não tinham. Em oito semanas, escreveram tudo num emulador do processador 8080 rodando no PDP-10 de Harvard. Allen voou até Albuquerque com a fita, digitou PRINT 2 + 2 e a máquina respondeu 4. Funcionou de primeira. A MITS contratou Allen; Gates largou Harvard no verão seguinte.
A carta aos hobbyistas e o software como produto
A sociedade de abril de 1975 já dava o controle a Gates, que depois a ajustaria para 64/36 — Allen, filho de bibliotecário, anotaria na autobiografia Idea Man que aquela era a diferença de negociar com o filho de um advogado. O nome da empresa, ideia de Allen, juntava microcomputer e software.
Em 3 de fevereiro de 1976, Gates publicou a célebre “Carta Aberta aos Hobbyistas”: o BASIC da Microsoft estava sendo copiado à vontade nos clubes de computador e, sem que alguém pagasse por ele, argumentava Gates, “não vai haver software bom”. A comunidade do Homebrew Computer Club — o mesmo clube de Steve Wozniak — recebeu o texto como um insulto. Mas era, na prática, o manifesto fundador de uma ideia que definiria a indústria: software é produto que se vende, não favor que se retribui. A empresa registrou o nome no Novo México em 26 de novembro de 1976, mudou-se para Bellevue, Washington, em 1º de janeiro de 1979, e licenciou o mesmo BASIC para Commodore, Apple e Radio Shack — o truque era vender o mesmo código para todos.
IBM, DOS e Windows: o contrato que não era exclusivo
Em 1980, a IBM precisava de um sistema operacional para o seu novo PC. A Digital Research, do CP/M, enrolou nas negociações. A Microsoft, então, comprou o 86-DOS da Seattle Computer Products (de Tim Paterson), adaptou-o e fechou com a IBM um contrato não exclusivo. Em 12 de agosto de 1981, o IBM PC saiu com o PC-DOS — mas foram os fabricantes de clones, comprando o MS-DOS diretamente da Microsoft, que fizeram a fortuna da empresa. Aquele “não exclusivo” é a origem do Wintel: o volume ficou com quem vendia o sistema para todo o mercado, não com quem montava a caixa.
O Windows 1.0 chegou em 20 de novembro de 1985, uma interface gráfica sobre o DOS inspirada no Macintosh. O IPO, em 13 de março de 1986, deixou Gates com cerca de 45% da empresa e o transformou no mais jovem bilionário feito por conta própria da época. O Windows 95, lançado em 24 de agosto de 1995 com o botão Iniciar e filas à meia-noite nas lojas, consolidou o domínio; o Office engoliu a concorrência em suítes de escritório; e o Internet Explorer, distribuído de graça dentro do Windows, acabaria no tribunal.
Antitruste, os Halloween Documents e o kernel do outro lado
O processo United States v. Microsoft começou em 18 de maio de 1998, acusando a empresa de amarrar o Internet Explorer ao Windows para matar o Netscape. Em 2000, o juiz Thomas Penfield Jackson chegou a ordenar a divisão da empresa em duas — decisão suavizada na apelação. O acordo de 2001 não a partiu, mas abriu APIs e trouxe anos de fiscalização, além de uma sequência de multas pesadas na Europa.
Para quem lê este blog, há um documento tão fundador quanto o BASIC: em outubro de 1998 vazaram os Halloween Documents, memorandos internos sobre como “conter” o Linux e o open source, publicados por Eric Raymond. A resposta do Vale do Silício e dos administradores de sistema foi o Apache, o GNU e o kernel de Linus Torvalds — a história está em Linux faz 35 anos. Gates passou o cargo de CEO a Steve Ballmer em 13 de janeiro de 2000, deixou o dia a dia em 2008 e saiu do conselho em 13 de março de 2020. Sob Satya Nadella, CEO desde 2014, a empresa se reinventou: Azure (cuja maior carga de trabalho é Linux), a compra do GitHub em 2018, o VS Code, o WSL e o .NET open source. A Microsoft de 2026 não é a da carta de 1976 — e o próprio Gates hoje detém menos de 1% dela.
A fundação e o plano de zerar a conta até 2045
A Bill & Melinda Gates Foundation nasceu em 2000, da fusão de fundações da família, com foco em vacinas, malária, pólio e educação. Gates e Warren Buffett criaram o Giving Pledge em 2010. Melinda deixou a copresidência em junho de 2024 e, em janeiro de 2025, a instituição passou a se chamar apenas Gates Foundation, com Gates como chairman único e Mark Suzman no comando. Até o fim de 2025, já havia distribuído mais de US$ 110 bilhões em recursos, sobre um endowment na casa dos US$ 90 bilhões — para o qual Gates e Melinda contribuíram US$ 63,9 bilhões e Buffett, US$ 47,9 bilhões.
Em maio de 2025, Gates anunciou que doaria cerca de 99% do que lhe restava — na época, uns US$ 107 bilhões — e que a fundação fecharia as portas no fim de 2045, após gastar algo em torno de US$ 200 bilhões em vinte anos. Em julho de 2026, Buffett interrompeu suas doações à fundação e redirecionou cerca de US$ 6 bilhões às fundações dos próprios filhos, à espera de uma revisão sobre os laços de Gates com Jeffrey Epstein. A maior parte da fortuna de Gates, hoje na casa dos US$ 105 a 111 bilhões, já não está na Microsoft: está na Cascade Investment, gerida por Michael Larson desde 1994.
Linha do tempo
- 28/out/1955 — Nasce em Seattle
- 1972 — Traf-O-Data, com Paul Allen (Intel 8008)
- 1973 — Entra em Harvard (não conclui)
- 4/abr/1975 — Fundação da Micro-Soft, em Albuquerque
- 3/fev/1976 — “Carta Aberta aos Hobbyistas”
- 1979 — Mudança para Bellevue, Washington
- 1980–1981 — Contrato não exclusivo com a IBM; IBM PC com PC-DOS
- 20/nov/1985 — Windows 1.0
- 13/mar/1986 — IPO da Microsoft; Gates, o mais jovem bilionário self-made
- 24/ago/1995 — Windows 95
- 18/mai/1998 — Início do processo antitruste; vazam os Halloween Documents
- 13/jan/2000 — Ballmer assume como CEO; nasce a fundação
- 2008 — Gates deixa o dia a dia da Microsoft
- 2010 — Giving Pledge, com Buffett
- 13/mar/2020 — Sai do conselho da Microsoft
- mai/2025 — Anuncia doar ~99% e fechar a fundação em 2045
O que ficou
Um menino de Lakeside, um teletype, um BASIC escrito em oito semanas e um contrato que não era exclusivo. Gates ensinou à indústria que software se cobra — e, décadas mais tarde, a própria Microsoft passou a publicar o código que um dia tentou conter. Paul Allen morreu em 15 de outubro de 2018; o sócio que ficou quer zerar a conta até 2045.
Por isso a capa deste post é Albuquerque, e não Redmond: o motel, o deserto e os quatro quadrados no pátio onde a MITS vendia o Altair. O software que hoje roda em cada mesa começou ali.